Sequestros & Delírios

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          O avião havia saído da pista há alguns minutos. Suas rodas tinham acabado de se recolherem e o veículo ganhava altitude a cada segundo.

          Já eu me sentia afundando num deserto de areia-movediça enquanto Jacob lia a mensagem que o sequestrador havia lhe passado pelo celular de Leroy.

          — "Entreguem Oliver Campbell até a meia-noite de amanhã, na Rua das Ameias, perto do Ponto Central. Quero apenas o mago e um acompanhante, não mais do que duas pessoas. Deixem o garoto no terceiro beco a esquerda e se afastem. Sem brincadeiras e sem o PM. Qualquer sinal suspeito terá como resposta a morte de Leroy. Se Oliver Campbell estiver em minhas mãos até o horário marcado, devolverei o refém no mesmo terceiro beco da mesma rua no amanhecer do dia do Torneio."

          Após chegar ao fim da mensagem, Jacob balançou a cabeça, suspirando.

          — Ponto Central. O que seria isso? — perguntou.

          Foi, como sempre, Cecyl que respondeu:

          — O lugar onde a Cidade Sul começou, um ponto bem no centro de uma das Cidades Originais, as grandes megalópoles que se juntaram para...

          — Certo, professora, eu entendi.

          Nós quatro ficamos em silêncio por algum tempo, com olhares distantes, sem encarar nenhum ponto em específico. Por fim, cada um começou a se distrair com algo, e todos decidiram deixar de lado a coisa do sequestro por um tempo. Menos eu.

          — Vocês não acham que talvez esse cara só queira me fazer uma surpresa? Tipo, quando eu chegar nesse tal beco da Rua das Ameias, ele pode me levar para um clube, ou algo do tipo. E vai ter uma placa bem grande de "Feliz Aniversário".

          — É seu aniversário? — perguntou Jacob.

          — Não...

          Silêncio, mais uma vez.

          — Mas pode ser qualquer coisa do tipo, certo? Não precisa ser meu aniversário. Talvez seja um churrasco para comemorar minha entrada no mundo da magia.

          — Sabe, Oliver — disse Gale, com desdém na voz —, a maioria das pessoas não costuma sequestrar terceiros e usá-los como moeda de troca num segundo sequestro para dar boas notícias.

          — Sei lá, existe louco para tudo.

          — Não para isso.

          Senti minhas pernas ficarem trêmulas. Era meio tarde para começar a tremer, já que eu havia recebido a ameaça há quase vinte minutos. A verdade era que apenas agora eu estava processando toda aquela informação. Um homem – alguém poderoso, um bom mago – estava atrás de mim, e tinha disposição para fazer coisas absurdas, como sequestrar.

          Cecyl ainda tinha o olhar distante, continuando em silêncio. De repente, ela começou a falar, como se estivesse pensando alto:

          — Os membros do Partido da Magia são divididos em níveis, do um até o dez. Para ter recebido uma missão tão delicada quanto cuidar de um grupo de magos jovens, Leroy não deve estar nos mais baixos. Mas, por estar encarregado de algo tão pequeno como a família Campbell, também não deve pertencer aos mais altos. Ele deve ser nível quatro, cinco ou, no máximo, seis, o que significa que qualquer um com poder o suficiente para conseguir sequestrá-lo deve estar no nível sete, pelo menos. Se pensarmos no nosso professor como um nível seis, talvez o sequestrador seja um oito. Não importa como vemos a situação, estamos competindo com alguém bem poderoso.

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