Secular Haze

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"You know that his son is near omnipotent
When she sees eye to eye with spears
You know that his son is near omnipotent
When youth and innocence disappear
Forever lost"  

-Secular Haze, Ghost

No silêncio que pairava pela noite da casa, os jovens ouvidos de Viviana finalmente conseguem captar um fraco som de passos, distintos, cuidadosos, longe. Parecem ensaiados, e a cada minuto ficam mais firmes, mais próximos.

Com medo de que fosse sua avó, Viviana obedece Juliana, se abaixa e rasteja para debaixo da cama da irmã, batendo sem querer a cabeça de Bibi contra a madeira da cama enquanto se escondia.

Os passos, um por um, finalmente chegam a porta do quarto de sua irmã e param.

A fechadura da porta do quarto de Juliana gira lentamente e Vivi coloca a mãozinha na boca para manter o silêncio.

Quando a porta se abre novamente com um leve ranger, dali debaixo da cama de Juliana, Viviana pode ver os grandes sapatos negros, lustrosos e de pontas quadradas.

A porta é novamente fechada atrás de quem quer que tenha entrado e a menina pode ouvir a respiração de sua irmã começar a acelerar. Juliana ofegava com dificuldade e em plena angustia, Vivi podia ouví-la soltar lágrimas que estavam presas a dias no seu único olho que restara. Queria fazer com que a irmã não mais chorasse, queria se levantar e abraçá-la. Mas algo a seu redor a manteve no lugar, apenas olhando os sapatos pretos se aproximarem da cama e pararem bem próximos a seu nariz, sentindo a cama mover-se assim que o intruso se senta na beirada dela.

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"Por... fa...vor..." As palavras de Juliana se afogavam em sua garganta, ela não tinha em si muita força para colocarem-nas para fora, sílabas deformadas era tudo que conseguia murmurar, tão fracas quanto o resto de seu corpo.

"Shhhhh." A voz masculina que silencía Juliana ecoa entre as quietas paredes, o dedo que se escondia debaixo de grossas luvas de couro negro agora acariciava os fracos e palidos lábios da adolescente. Juliana aceita o comando do homem a beira de sua cama e o acalento frio que seu ímpio toque lhe trazia.

Por fim! Algo doce e sereno! Era melhor que a excruciante dor e o vazio que sentia até então. Era ele. O atroz colhedor de sua alma. Nunca imaginara que sentiria tamanho alívio sob seu contato. Uma anestesia eufórica demais, de repente podia sentir todo seu corpo novamente.

O sombrio homem apenas a olhava em silêncio, o serno ar a sua volta impregnado com sua essência desumana. Cortês e afável, rico em heresia e pecado.

Juliana sabia o que estava para acontecer. Em seu âmago, já esperava por isso desde o momento em que caíra doente. Só então pôde entender. E aceitar.

E soube somente neste exato momento em que ele chegara ali que ela queria se entregar. Era sórdido e errado, pagava por um pecado que não cometera, um trato que nunca assinara. Mas ansiava por isso como jamais ansiou por qualquer outrs coisa.

O que sentia era tão excruciante que se encontrava no momento pedindo e clamando para que seu destino fosse ali cumprido. Ela se agarra fracamente as vestimentas aparentemente caras e pretas do homem de esguia silhueta que lhe olhava no olho. Ah, os olhos dele! Juliana podia ver toda sua vida passar em infimos detalhes e valerem a pena ali naquelas retinas, especialmente na que era branca como a neve e brilhava como uma estrela.

"O seu resplendor é como a luz; raios brilhantes saem da sua mão, e o esconderijo da sua força está ali." A voz suscinta do homem corta a noite com austeridade, estendendo sua mão para tocar o cabelo da moça, mas as madeixas acabam por cair em seus dedos. "As pestes vão adiante dele, e a praga destruidora o segue. Eis que ele se deteve, e a terra estremeceu; olhou, e fez tremer todas as nações." Estuda com pesar os fioa sem vida, soltando-as no chão em seguida, voltando seu olhar ao rosto definhado mas ainda angelical. "Poético, não? Habacuque fora um dos meus favoritos." Descansando ambas as mãos sobre o castão de metal de sua bengala, absorve o estado deplorável de sua próxima ceia. A visão da carne descomposta lhe era belíssima. "Perdoe-me a demora, Rhalveh."

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