13 - Ilóricos - Parte 4

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- O que você ouviu? Pelo jeito, acho que é importante compartilhar.
Eu ainda estava zonza ao entrar no meu quarto acompanhada de Suzana. Sentei-me na cama. Desde que os meus olhos tinham encontrado os dela lá no começo da escadaria, Suzana vinha me questionando em sussurros, aos quais eu resistia em responder. Contudo, então, chegou o momento.
- A Airte... Ela estava torturando aquela menina que gritava.
Suzana se sentou ao meu lado. No peso do seu corpo havia mais do que carne. Havia toda uma preocupação.
- Droga. Essa gente sempre acaba decepcionando. - Ela meneou.
- Essa gente?
- Religiosos. - Ela manteve o olhar distante e meneou discretamente indignada - Eu era uma católica fervorosa. - Eu tentei imaginar uma Suzana submissa, até mesmo mais frágil. Não, ela não era desse tipo de devota Creio que ela devia ser militante e ousada ao pregar a sua fé. Se bem que não tem como eu saber. As pessoas nos surpreendem. - Nem me pergunte o porquê de eu dizer "era".
Ela girou a cabeça, como que demonstrando o mundo que nos cercava. Vir parar em outro planeta abalou a sua fé. Como eu nunca fui praticante de religião alguma, esse tema ainda não havia me encontrado aqui. Quantas mais tiveram as suas crenças cruamente questionadas ao descobrirem que elas e suas famílias possuem sangue alien e que elas têm alguns superpoderes? Saí dessa divagação assim que Suzana bateu uma palma na outra, esfregando-as, e se levantou. Contudo o que ela me disse logo depois impediu o meu sono.
- É melhor você nem se intrometer. Grinnmann e os líderes sabem o que estão fazendo. Deixa quieto!
E saiu, batendo a porta.

Quando a gente acha que compreendemos essas águas misteriosas, somos obrigados a voltar às margens para poder observar a curva nova que o rio traz.
- Você vai pagar pelo que você fez a todas essas mulheres.
Lembro-me desse sussurro de enfrentamento que saiu de mim em frente ao meu chefe. Ex-chefe.
Eu sei lutar, mas fico me lembrando de quando eu me cansei. Foi logo antes daqui. Eu, chorando na plataforma do trem. Queria desistir e ir para o conforto da família.
Tudo o que passei no jornal naquele dia e tudo o que veio sobre mim desde então mantiveram meus olhos abertos por quase toda a noite. Eles não nos explicaram se existem outros planetas com vida inteligente, mas será que a noite é pra não dormir no universo todo?
A caminho da primeira refeição - duas frutas amarelas e redondas, de recheio em gomas brancas, azedas e cremosas, chamadas de vami-vami e mais água purificada - uma horda nova de pessoas usando túnicas azuis iguais às de Dulan e Airte ocupavam todos os corredores e o pátio.
- Quanta gente nova das Gotas! - Joguei comentário antes de abocanhar mais um pedaço de vami-vami. Lá estávamos: na nossa enorme mesa, no nosso largo pátio.
- Não disse que Grinnmann iria cuidar de tudo? - Suzana cochichou de boca cheia e sem olhar nos meus olhos. Na hora, eu acenei com a cabeça, concordando, mas, no fundo, aquilo não me pareceu lógico. Acho que Suzana pensava o mesmo, mas creio que ela ignorava essa sensação. Grinnmann não gostava de Airte e nem de sua gente. Precisava falar com ele para entender tudo. Punia me explicou como chegar lá. Enquanto falava animada, os seus olhos pareciam me investigar totalmente.
Seguindo as suas orientações, subi dois lances de escadas de tinta branca que começavam no extremo norte do pátio. Bati na primeira porta com um pequeno losango amarelo acima da maçaneta. Punia me ensinou que o amarelo aqui simboliza "perigo" pela relação com a cor predominante do Grande Deserto que preenche a maior parte do Norte deste planeta.
- Entre! - Obedecendo o comando de Grinnmann, assim eu o fiz. Acho que o faria mesmo se ele não tivesse dito para fazê-lo.
- Você tem um espírito rebelde. - Minha vó me disse num domingo de Páscoa. Beijou minha testa e me deu uma pequena barra de chocolate antes do almoço, contra o desejo da minha mãe e se rendendo à minha teimosia.
- Você aqui? Eu não sou errado demais pra você?
- Eu... Sinto muito.
- Tudo bem. - Ele se impressionou. Achou que eu tivesse vindo para brigar. - Sente-se. Fique à vontade. - Ele se sentou na sua poltrona larga, dura e extremamente negra.
- O que são todas essas pessoas das Gotas? - Ele pareceu gostar da minha pergunta, mas, então, receou-a.
- Ela não lhe contou? - À sua pergunta, enviei meu olhar de incompreensão.
- Achei que fossem amigas. - Ele acrescentou, enquanto mexia em folhas finas, de uma certa transparência e tom azul. Documentos, assumi.
- Não force. - Ele levantou o olhar e deu de cara com um sorriso debochado que desenhei no meu rosto. Ele retribui dando um riso ligeiro.
- Airte achou necessário. - Ele organizou os arquivos em uma pilha e colocou uma amargura na cara, que logo, ele desmanchou. - As Gotas estão tomando cada vez mais espaço em todas as esferas da sociedade e, cada vez mais, o povo tem se convertido a essa fé. O Ministério Secreto que cuida dos assuntos relacionados às Sete se tornou o mais recente... Hm... Objetivo... Mas ok.
- Não precisa esconder o que sente. Eu ouvi a conversa de vocês. - Ele não disfaçou o espanto. Eu continuei:
- Sou jornalista. Bem, pelo menos, era. Não pude evitar. E o que eu ouvi...
- O que você ouviu, Martha?
- Que há tortura por aí e uma religiosa... Fanática pensando em execução... De purificação!
- Execuções. - Levantou uma de suas folhas e a jogou novamente em cima das outras.
- Meu Deus... - Eu perdi o fôlego e clareza de raciocínio. Inclinei-me sobre a mesa. - Ela quer matar mais de nós?
- Todas de quem ela desconfiar.
- E o que você pretende fazer? - Sussurrei angustiada.
- O que você e eu vamos fazer?

E o que criamos juntos como plano foi: colocar todas as sessenta e quatro mais Hannah em veículos planadores, sob o pretexto de um treinamento fora dali. Airte tem que ser pega de surpresa. Íamos executá-lo no começo da tarde. Todos os instrutores que são fieis ao Grinnmann estavam sendo informados e avisando as garotas pessoalmente.
- Treinamento em campo! Que ideia. O que acha disso? - Suzana me abordou enquanto eu caminhava até o meu quarto.
- Ótima. Vai ser interessante sair um pouco daqui. Com licença. - Entrei no meu quarto e fechei a porta. Não contei coisa alguma à Suzana. As suas últimas nuances não me dizem para confiar nela.
O tempo passava, mas eu não o sentia enquanto fitava a parede acinzentada. Remoía as últimas palavras de Grinnmann.
- De dar e tirar poderes.

Essa foi a resposta à minha pergunta, que só foi respondida porque ele voltou a confiar em mim assim que decidi me voltar contra Airte e a sua seita.
- Qual é o meu poder? - Questionei me aproximando de seu corpo. Ele me esclareceu com um brilho no olhar:
- De dar e tirar poderes.
Um instrutor careca, sério e muito alto entrou na sala. Tive que me retirar, zonza de dúvidas e esmurrada pela revelação.

Batidas na porta. Alguém estava a me tirar das minhas memórias recentes. Saí da minha cama lentamente, teimando na pouca velocidade e na mirrada vontade. Mão na maçaneta. Porta aberta.

- Tem outra coisa que preciso te contar. - Grinnmann disse já entrando. Fechei a porta antes que ele pedisse, pois ele ia, com certeza.
- Isso vai te abalar, certamente! - Ele caminhou até a outra extremidade possível daquele quarto pequeno.
- O que é? - Reparei que ele carregava algo coberto por um tecido parecido com lã de cor chumbo. Cruzei os braços. Algo havia mudado em mim. A minha simpatia parecia forçada em qualquer tentativa.
- Dentro disso aqui, há um dispositivo retangular e de aparência vítrea transparente. Dentro de toda nave, há um leitor que pode transmitir o seu conteúdo. Ele vai ajudar com que todas vocês fiquem unidas e não se tornem inimigas umas das outras. - Ele disse com o objeto segurado por uma embaixo e outra em cima. A imagem de todas nós unidas me deu vontade de debochar, mas a de sessenta e cinco mulheres em guerra umas com as outras no meio do mundo selvagem foi mais aterradora.
- E o que seria este conteúdo? - Pigarreei e perguntei. Ele se sentou na cama sem pedir. Pôs o objeto ao seu lado e apoiou a cabeça entre as mãos que massageavam as suas têmporas. Respondeu sem vida na voz:
- Que todos os seus familiares... Estão mortos... Mortos há mais de cem anos.

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now