Com mais alguns passos lentos, finalmente pôde compreender a empolgação de Odayga. Uma grande queda d'água se apresentava no meio da trilha, separando o velho do garoto.

– Como chegou até aí? – Wiil gritava para ser ouvido diante da ruidosa cachoeira.

– Atravessei. Venha, o caminho continua por detrás da queda d'água.

Wiil observou a colossal cachoeira, que morria em alguma parte lá embaixo onde seus olhos não conseguiam acompanhar. De fato, a trilha seguia em linha reta junto à parede pela qual a cachoeira caía. A água ricocheteava com força em todas as pedras por ali. A perna do garoto tremia ao ritmo das pancadas de água sobre a trilha, e o pavor de seguir o caminho dos pequenos pedregulhos que a cachoeira derrubava começava a encher o seu rosto.

– Não posso. É muito perigoso! – Wiil encostava-se na parede da montanha.

– Eu pude. Por que você não poderia?

Como um homem de avançada idade conseguia subir tão rápido e ainda ter a precisão necessária para atravessar aquela cachoeira sem escorregar para a morte? A pergunta retórica de Odayga, ao invés de encorajá-lo, acrescentou ao seu pavor uma grande humilhação que não conseguia se esconder na voz que lutava contra o som gutural das águas:

– Não consigo!

– Eu consegui!

– Tenho medo!

Odayga eriçou o tronco, como quem compreendia a situação e tomava uma decisão, mas parado ali ficou esperando mais alguma resposta. Não iria mais insistir.

– Deve haver um outro caminho, mais seguro! – tentou, o garoto.

– Este é o meu caminho. Por ele vou seguir até encontrar o que vim buscar! – o velho corcunda girou sem dizer mais nada e sumiu na trilha adiante, deixando para Wiil a imagem das suas costas curvadas se distanciando lentamente da cachoeira.

Wiil acompanhava com os olhos sem acreditar que Odayga havia partido sem ele. Vai me abandonar aqui? Achava que estavam juntos. Não teve forças para perguntar em voz alta diante da ensurdecedora cachoeira. Suas pernas tremiam mais e começou a achar que poderia cair sem nem mesmo tentar atravessar. Agachou-se grudado na parede, como se quisesse fundir-se com aquela montanha e esconder-se para sempre entre as rochas, da vergonha que teve de si mesmo. Após a humilhação e vergonha diante da montanha inundarem sua face, o desespero da sobrevivência tomou conta de si. Mesmo que quisesse desistir e descer, saberia voltar sozinho? Agora o topo parecia ainda mais distante, a montanha muito maior, e o caminho de descida tão desconhecido como se um pássaro o houvesse colocado ali no meio da montanha e nunca tivesse subido um degrau se quer pouco tempo atrás.

Quando reuniu forças para se levantar, vagou por algum tempo na direção oposta a cachoeira, até que achou a entrada de uma gruta. Aparentemente, se seguisse por vários metros, poderia chegar na mesma direção que o velho tomara, porém, entrando pelo meio da montanha. Ou poderia se perder para sempre no coração daquela cordilheira. Lembrou que levava uma lamparina e uma bússola velha do seu pai na mochila, e com a sua luz decidiu conhecer a montanha por dentro.

A gruta tinha alguns metros acima da sua cabeça e variava de largura. Repleta de estalactites e estalagmites pingados por milênios, a caverna oferecia uma diversidade de ilusões de ótica criadas com a luz que Wiil levava e as sombras projetadas pelas formações de carbonato de cálcio. Caminhando lentamente, tentava se manter em linha reta na escuridão, mas sempre parando para observar aquelas estátuas naturais que se espalhavam à sua volta.

Lá dentro, começava a perder a noção do tempo e de concretude daquelas formas moldadas pela natureza. Uma estalagmite lembrava um barquinho. E suas memórias começavam a tomar forma naquelas figuras mal iluminadas e sombrias. Ouviu uma voz dizer: "vamos ver quem chega primeiro no barco". Era seu irmão mais velho chamando-o para uma corrida que sabia que iria vencer. Não sabia nadar: o desespero tomava conta quando não sentia os pés no chão da areia. "Sabe nem nadar", ele ouvia e desistia com vergonha. Nunca soube como era dentro do barco, queria saber até onde ele conseguia navegar. Mas não podia descobrir. Passando com a lamparina pelo barquinho, já parecia com quaisquer daquelas formas desformes. No horizonte, o mar de escuridão continuava e ele progredia com a bússola à frente, para manter-se em linha reta.

Parou diante de uma gigantesca coruja, que ia do teto ao chão, e o Garoto conseguia ouvir o tic tac do relógio no formato do pássaro na sala do seu mentor, quando este analisava os seus papéis. "Que bom que está seguindo os passos do seu pai... Veja, isto aqui está muito bom, mas... é isso mesmo que você quer fazer?" Nunca respondeu, não sabia. Apenas seguia aquela direção, afinal devia ser a certa. A seta da bússola desviou para Oeste quando ele se virou para contornar a figura do sábio pássaro, voltando ao Norte quando ele resolveu seguir em frente. A luz da entrada já havia desaparecido a tanto tempo que podia jurar que nascera naquela gruta, e seu mundo era a visão daquelas figuras para as quais sua memória dava vida.

Sentiu que começava a subir levemente, as paredes e o teto se estreitavam. A gruta ficava mais úmida a cada passo, e se via algumas poças formadas por pequenos fios de água que desciam. Em uma delas olhou o seu reflexo, iluminando sua face com a lanterna. Não conseguia posicioná-la de modo a ver claramente como parecia aquele rosto. As sombras o faziam parecer hora mais velho, hora mias novo. Os óculos faziam-no parecer um velho estudioso, mas sabia que o conhecimento dos livros e anotações não o fariam sair de lá. Aumentou o passo e um distante e gutural som começou a inundar a gruta. Enquanto as paredes iam se estreitando, conseguiu vislumbrar a sua frente a figura de um homem de costas, com uma grande mochila. Com uma das mãos segurava algo como uma lanterna, com a outra apontava para frente. Parou e tremeu, pois essa era a imagem mais real de um homem que ele já tinha visto até ali. Tinha a mesma estatura que ele, sua mesma inclinação para frente. Aproximou a luz da figura e vislumbrou uma réplica de si mesmo como a mais perfeita obra da natureza.

Quando percebeu que a figura não levava uma bússola, percebeu que tinha perdido a sua a muito tempo. Não precisava, a estátua apontava para um ponto de luz ao longe. Acelerou o passo na proporção que o estrondo ao redor aumentava, o chão sob seus pés se inclinava e as paredes se estreitavam. Voltou aos poucos a ter noção de perspectiva, ao passo que as figuras feitas de carbonato de cálcio se rarefaziam. Porém, quanto mais seu coração se acelerava, mais estreitas ficavam as paredes e o teto da caverna se aproximava do chão. A luz se aproximava, mas continuava estreita. Aos poucos, percebeu que estava num estreito túnel que mal cabia a si. Encolhendo os braços, se aproximava da luz à sua frente, enquanto já sentia o cheiro de lá fora. Se aproximou protegendo os olhos até descobrir que a abertura ao final da gruta era tão pequena quanto sua exata altura e tão larga quanto a extensão dos seus ombros.

Saiu e respirou aquele ar novamente, e parecia que nunca seus pulmões haviam se enchido tanto. Sentou numa rocha do lado de fora, e sentiu o calor da luz do Sol. Ouviu o som distante da cachoeira e acreditou que havia atravessado a montanha. Talvez encontrasse Odayga por ali.

Abriu os olhos e vislumbrou a imagem, embaçada por lágrimas, do vale aos seus pés. No horizonte não via mais as chapadas, mas um mar para onde corria o rio formado pela cachoeira, iluminado pelo alvorecer. Levantou a cabeça e tentou ver o topo da montanha. Não parecia tão desafiadora, mas aconchegante e convidativa. Pensou ter visto a silhueta do velho parado com seu cajado lá em cima. Mas agora que o via, não sentia vontade de segui-lo. Havia achado seu próprio caminho.

Levantou. Se sentia contemplado pelo desafio da montanha. Ensaiou descer por uma trilha que se desenhava ali, quando ouviu passos e respiração ofegante vinda montanha abaixo.

– Senhor! – um garoto surgia – Que bom que o encontrei. Está há muito tempo aqui?

– Não sei dizer...

–Falta muito para chegar no topo?

O velho Wiil olhou para o cume e começou a subir na sua direção.

– A montanha é bem alta! – respondeu, com o garoto seguindo-o.    

Nossa MontanhaWhere stories live. Discover now