Nossa Montanha

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– Há quanto tempo estamos andando? – perguntou o jovem Wiil.

– Não sei dizer. – Respondeu o velho.

– Ainda falta muito para chegar no topo? – o garoto parou um pouco, olhando contra o Sol que ofuscava o cume.

– A montanha é bem alta. – a resposta deixou o Wiil ainda mais ansioso.

Será que ele sabe mesmo aonde está indo? Indagava-se, agora sem perguntar ao velho que ia à sua frente. Corcunda, apoiando-se num cajado que parecia ter sido achado no meio da trilha e com uma mochila leve, o velho seguia vagarosamente a trilha. Era chamado de Odayga, e mais do que isso, Wiil não sabia. Vez ou outra, Odayga parava, ouvia, observava, e continuava como se acabasse de se lembrar de algo, não necessariamente do caminho, pois a trilha praticamente não tinha bifurcações e era bem nítida a maior parte do tempo. Em outros momentos, ele saía da trilha de repente para adentrar por meio de rochas e matas, e chegar numa outra trilha (ou seria a mesma?) num ponto mais alto (ou mais baixo, para desespero do garoto).

Wiil não questionava, apenas o seguia, confiando em sua experiência. Levava consigo uma mochila mais pesada, com mantimentos, equipamentos de escalada, primeiros socorros, e até mesmo livros e caderno de anotações. Questionava-se hora se havia trazido muita coisa, hora se o velho que não era displicente demais. Seguia-o de qualquer modo, ainda que às vezes não entendesse por quê ele pegava tal caminho, quando aquele parecia mais fácil. Não estamos descendo? Por que se meter nessas matas, se há uma trilha batida aqui? Guardava as indagações, apenas seguia.

Após sair de um caminho entre as árvores, Odayga apontou à frente com um sorriso de satisfação e chamou o garoto. A trilha revelava-se estreita contornando a montanha e possibilitando a vista para o vale abaixo. O velho apontava para uma formação de rochas que parecia um grande ninho de gavião, saliente, apontando para fora da montanha. Sentando-se no meio do ninho de rochas, acomodou-se com a quentura da pedra às suas costas. Wiil fez o mesmo, e conseguiu ver um grande vale que terminava com o lado escuro do que seria um chapadão, atrás do qual o Sol começava a se esconder.

– Vê lá no horizonte, o chapadão? – o Odayga quebrava o silêncio.

– Sim, são antigas formações geomorfológicas. Nossa montanha é muito mais jovem, sabia?

O velho admirou-se com o que Wiil havia aprendido nos livros.

– Escute... lá, o objetivo não é chegar ao topo. Não é esse o desafio. Mas, chegando lá em cima, você pode percorrer todo o planalto, há mais uma infinidade de coisas a serem observadas e aprendidas. Toda uma nova jornada. Aqui nesta jovem montanha, que parece ter a idade do mundo, olhamos para cima e somos constantemente desafiados pelo seu pico impiedoso e distante. Mas, o que fará quando chegar lá?... Isto é, se sua ansiedade o permitir ir tão longe...

– Não estou ansioso.

O velho Odayga lançou um olhar irônico para Wiil e se levantou rumo à trilha. O garoto demorou um pouco mais no ninho de gavião. Queria anotar algo sobre aquilo, mas não sabia ao certo se sobre sua sonhada chegada ao pico da montanha, ou sobre uma imaginária caminhada no topo de uma chapada.

Quando estavam numa fase íngreme da trilha, com seus passos lentos, porém, ritmados, começaram a ouvir um barulho estrondoso e constante. Odayga colocou a mão em forma de concha no ouvido e com um sorriso empolgado acelerou o passo.

– O que foi? Estamos chegando no topo? – sem obter resposta, Wiil tentou acompanhar o novo ritmo sem sucesso. Curiosamente, percebia que, apesar da idade, Odayga tinha uma agilidade muito maior em subir os degraus naturais de pedra – o cajado ajudava, mas impressionava a força e firmeza daquelas pernas ossudas. O limo e a humidade que começavam a lubrificar as pedras faziam o jovem Wiil ser mais precavido em cada passo, ficando para trás.

Nossa MontanhaWhere stories live. Discover now