Príncipes, biscoitos de gengibre e neve natalina - Clara Savelli

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Tudo estava exatamente como sempre. A família inteira apinhada no carro, em um engarrafamento gigantesco e em um calor de quarenta graus, em um carro velho e sem ar-condicionado. Seis pessoas em um Uno antigo e debilitado – era isso que tinha para aquele dia 24. O glamour das festas de fim de ano só existia mesmo nos filmes que eu gostava de ver na televisão. No meio da BR-101 não tinha neve, nem biscoitinhos de gengibre e muito menos príncipes disfarçados.

― Falei para a gente não ir esse ano!

No lugar do cenário encantado, minha realidade tinha minha avó reclamando, vendedores de biscoito de polvilho e a sensação de que minha cabeça estava fritando. Mais espírito natalino que isso?

― Foi muito em cima, óbvio que estaria engarrafado ― continuou ela, quase soterrada embaixo da minha irmã mais nova, que estava em seu colo.

― Está engarrafado todo ano, mãe ― minha mãe respondeu, sem paciência.

― É tudo culpa da Bruna ― minha irmã reclamou, esticando a língua para fora. ― Se ela não estivesse trabalhando, a gente poderia ter saído de casa mais cedo.

― Ora, ora ― me defendi. ― Agora a culpa do engarrafamento é do proletariado brasileiro?

Queria eu não precisar trabalhar meio expediente na véspera de Natal. Seria mesmo maravilhoso. Porém, como recém-formada e recém-contratada, eu não tinha muita voz na empresa. Então, quando meu chefe falou "Bruna, você vai pegar o turno da manhã do dia 24, tudo bem?", tudo que me cabia era responder "claro, sem problemas". É claro que tinha problema. Tinha muito problema, inclusive. Mas aquele salário no fim do mês me fazia sorrir e concordar. Era a única coisa que vinha me fazendo sorrir e concordar naquele ambiente de trabalho, na verdade. Especialmente desde o que acontecera com Guilherme.

― A culpa não é da Bruna, Aninha ― meu pai veio em meu socorro. ― A culpa não é de ninguém.

Eu também gostaria de apontar um culpado, mas na verdade a culpa era de todos nós e da nossa estúpida tradição de ir para casa de praia da minha tia no Natal. É claro que era para termos desistido dessa missão uma semana antes, quando eu fiquei sabendo que precisaria trabalhar na véspera. Inclusive, eu sugeri que fizéssemos o Natal no Rio mesmo, talvez até lá em casa, mas ninguém me ouviu. Aliás, muito pelo contrário: minha irmã começou a berrar que queria ir para praia, minha tia dona da casa de Rio das Ostras começou a achar que eu estava desprestigiando sua casa de praia e minha outra tia, que estava enfurnada naquele veículo com a gente, disse que trocar o que fazíamos todo Natal talvez gerasse azar.

Esse último argumento foi o único que fez com que eu considerasse que ir era mesmo a melhor opção, porque de azar eu já estava cheia. A única coisa decente que tinha acontecido na minha vida nos últimos seis meses tinha sido a efetivação no trabalho, porque sinceramente, todo resto estava em ruínas. E isso explicava por que eu estava fritando a cabeça naquele carro minúsculo e superpopuloso. Era só mais um mimo do meu querido azar, presente o tempo todo em minha vida. Se não ir para casa de praia fosse piorá-lo, talvez eu terminasse o ano no hospital.

― Daqui a pouco melhora ― minha tia Verônica disse.

Pensar na comida natalina era a única coisa que estava mantendo minha sanidade dentro daquela sauna. Tia Lila cozinhava maravilhosamente bem e, como dona da casa, tinha ido mais cedo para Rio das Ostras para arrumar tudo para nossa chegada. Verônica, minha tia que estava no carro, era a irmã mais nova de Lila e minha mãe. Ela morava no Espírito Santo, onde gerenciava um centro zen – fosse lá o que isso significasse – mas tinha vindo para o Rio no início da semana para participar do Natal-da-família-Moraes.

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