Capítulo 23

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Cês acharam que a coisa ia melhorar, né?

Cês acharam que a coisa ia melhorar, né?

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Rafael

Não era o fim do mundo. Era só uma merda de uma prova, ninguém ia sair melhor, nem maior por causa dela. Fosse num mundo perfeito, todo mundo teria a chance de cursar o que quisesse, sem nem fazer vestibular.

Mas daí, quem é que ia limpar o seu chão, né? Quem é que ia te atender no mercado? No mundo perfeito todo mundo faz o que ama, mas ninguém limpa o chão. E no mundo perfeito o dono do mercado ia ter que ficar com a barriga encostada na caixa registradora porque, se o mercado é dele, ele que cuide.

Por isso que tem prova. E por isso que só os ricos passam. E por isso que educação é tão importante para mim, porque meu berço não é de ouro e não tem pai bancando meu estudo enquanto eu tô comendo dois. Tinha eu, meu esforço, minha dedicação, e cada mililitro do suor da minha mãe. Não tem escolha para mim, o passar ou esperar ano que vem. Ou eu passava na primeira tentativa, ou ano que vem seria eu de caixa de mercado ouvindo o patrão do mundo imperfeito reclamar que é ele quem trabalha demais.

Ou eu passava na pública, ou eu podia dar adeus ao sonho de engenheiro. Mesmo se eu trabalhasse, de Sol a Sol, de domingo a domingo, alguém, por favor, me explica como um primeiro emprego paga a mensalidade de uma faculdade de engenharia, porque eu, por mais bom de matemática que seja, não faço milagre.

Gabriel chorando porque não passou na faculdade junto com a Manu e eu, do lado dele, sem conseguir me comover. Com raiva de Manuela porque ela tem a oportunidade de escolher ano que vem para tentar de novo. Decidir que essa era a vez do Gabriel, não a dela. Gabriel chorando porque passou e porque ninguém acredita no potencial dele, enquanto eu, que passei, fui jogado para escanteio a vida inteira primeiro porque só tinha uma camiseta de uniforme, segundo porque meus tênis nunca foram de marca, terceiro porque filho de mãe solteira carrega nas costas umas coisas que os filhos com família unida e completa não sabem o que é.

E quarto, porque Gabriel foi expulso de casa, mas foi criado para ser rico e dono do mundo, servido por gente como eu. E chora porque duvidam da capacidade dele, sendo que eu nasci com a capacidade desafiada e não consigo me comover por coisa que nem essa.

É difícil gostar de pessoas com criações tão absurdas. Manuela que acredita que o amor sangra, Gabriel que nunca foi contestado, nunca foi desafiado, tudo sempre foi lhe entregue de bandeja. Manuela que ganha uma impressora 3D e decide assim que quer ser arquiteta (quantas 3D você tem no seu quarto?) e Gabriel que tem correntes de ouro que, juntas, custam mais que a minha casa. E olha que Dona Lúcia comeu o pão que o diabo amassou só para ter sua casinha. E ainda vai pagar por ela por mais vinte anos.

Eu olho para tudo isso e já devia ter me acostumado. Eu cresci ao redor deles. Entrei na escola deles, tirei mais notas do que eles, mas me envergonhava porque meu tênis custava menos e minha mochila era a mesma do ano anterior. E não tinha Ben10 na estampa do meu caderno, nem nenhum personagem de cor chamativa e da moda.

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