13 - Ilóricos - Parte 3

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Os dias que vieram foram preenchidos por uma rotina cheia de treinamento. Os instrutores nos ensinavam guma, um estilo de luta das tropas nortistas que foca no ataque e na rapidez. Chutes velozes e esquiva foi o que tivemos que aperfeiçoar sob muito suor. Sempre havia uma ou outra que caía na risada. Geralmente era Shang, a chinesa, que parecia ter um rosto de dezesseis, apesar de já ter vinte e cinco. Ela ria de Punia que, por mais que tentasse, movia os seus membros como pares de cadarços desamarrados. Essa bufava, girava os olhos, fingindo braveza e também acabava caindo no riso. Depois íamos ao almoço que consistia de todas nós sessenta e quatro, sentadas a uma mesa longa de vidro escuro e um bolinho marrom pesado feito de raízes e copos grandes e grossos cheios de água purificada.
- Que vontade de um hamburguer! - Melanie sonhou acordada com a língua deslizando sobre o lábio superior e o indicador brincando com um de seus cachos. Logo depois de comerem, as outras iam para os treinos por categoria de habilidades, enquanto eu ficava sozinha em meu quarto, quase que enlouquecendo, pensando na minha atual vida. A líder. Por isso, a caminho da refeição, Suzana sempre se aproximava secando a testa suada e perguntava jogando o pescoço para frente:
- E aí?
- Ainda nada.
Era pouco, mas nos entendíamos. Estávamos falando de minhas habilidades. Ainda nada se manifestava. Sempre que Airte se aproximava de mim, sorrindo gentil e calorosamente, eu lhe cochichava essa minha inquietação:
- Ainda não. - E ela deixava uma frustração vir à superfície de seu rosto. Cheguei a ver, uma vez, ela saindo de perto de mim, depois de um toque amigável no meu ombro, e ir em direção à Grinnmann que observava a todas nós durante o almoço. De soslaio, vi o nosso líder substituto sendo nada receptivo com ela. Ele lhe negava a informação sobre os meus poderes, pude interpretar à distância. Como eu disse, ele havia perdido a confiança em mim. Mas por quê? Porque ele achava que eu confiava em Airte. Contudo, só vim a entender tudo isso um pouco depois, numa situação mais desesperadora. Essa que começou durante uma noite com gritos ecoando de longe.
Já estávamos deitadas, mas não conseguíamos dormir. Era um ruído latejante que logo identificamos como alguém em dor. Era uma mulher, talvez mesmo uma garota, gritando em sofrimento. Não sei se houve uma primeira de nós a sair de seus quartos, pois quando eu vi eu já estava no corredor e as outras já se acumulavam nas portas dos alojamentos coletivos no andar debaixo. Agarrada na mureta do meu corredor, pude segui-las com o meu olhar, enquanto se direcionavam receosas, mas incessantes, aonde os gritos se originaram. Decidi descer as escadas e fazer o mesmo. Cheguei num ponto em que todas se acumulavam na entrada de um corredor largo com portas de vidro escuro em paredes cinzas e uma maior e mais larga se destacava em seu fim. A agonia de uma garota vinha de uma delas e todas as mulheres temiam se aproximar. Uma porta à direita se abriu.
- Martha, por favor. - Saiu uma Airte cansada, secando o suor da testa, em sua túnica de dormir azul-claro, de tecido leve e que chegava a cobrir seus pés de tão longa. Custei a responder ao seu chamado. Não fazia sentido que ela chamasse só e especificamente a mim. Olhei para trás e Grinnmann vinha a passos rápidos.
- Martha! - Ela me chamou em tom de clamor, outra vez. Grinnmann passou à frente e vai até Airte, que, então, agarrou os dois lados da soleira, bloqueando a entrada.
- Eu disse "Martha". - Enfatizou, encarando o homem mais alto que ela e depois lançou o olhar sobre mim.
- Martha... Por favor. Ela é uma das líderes genuínas. - Airte se volta para o seu antagonista.
- Eu sou o líder de todos aqui e você só é uma religiosa prestando serviços de orientação de mente, a quem precisar. - Ele afirma se aproximando de Airte, abaixando um pouco o volume da voz e
ela parece engolir tudo isso como uma ofensa. Deu uma jogada ligeira de pescoço, com os olhos fechados. Ela despistou o desgosto que lhe subiu à face.
- Você acha que só por ser homem pode fazer o que quiser e destratar os outros? - O rosto de Grinnmann se congelou de decepção com o que eu disse. Eu me senti mal imediatamente. No momento, não soube o porquê, mas depois eu descobri. Intuição, creio eu.
- Como posso te ajudar? - Dei um passo a frente e me ofereci a Airte, condoída também pela mulher que esperneava em angústia. Grinnmann meneou em aceitação.
- Podemos conversar primeiro, por favor? - Ele desfez a pose de enfrentamento. - Só quero ajudar. Sabe que eu sempre amei e me devotei a Dulan. - Ele engoliu o amargo que veio com o que proferiu depois - Portanto, sabe do meu respeito a você; da minha admiração.
Airte abaixou o olhar, passou-o por mim num pulo e respondeu ao cara magro e de 1,85 de altura:
- Tudo bem. - Ela acenou com a cabeça que se abaixou e deu espaço para ele entrar. Apertou a mão direita no pulso esquerdo rapidamente. Eu não entendi, mas hoje, sim. Sorriu para mim e fechou a porta. O fato curioso é que, só então, percebi que quem quer que estivesse ali dentro, havia parado de gritar assim que Airte apareceu na porta. Sob inspeção de nossos tutores, fomos orientadas a voltar para o quarto. Aceitamos a orientação. Em parte, na verdade, pois escondi-me atrás das escadas. As outras repararam no que eu havia feito, temeram e cochichavam. Quando os tutores se dispersaram, andei na ponta dos pés para cada vez mais perto da porta que escondia Airte, Grinnmann e uma garota que ainda não havia voltado a gritar.
Foi quando pude ouvir toda aquela conversa. A em que a moça se chamava Hannah, havia sido trazida do deserto há pouco; que antes havia estado morta e que fora ressuscitada e possuída pelos ilóricos, os demônios da maioria dos religiosos daqui. Airte confessou que antes havia a torturado. Daí vinham os gritos. Ela acreditava que os possuídos por ilóricos deveriam morrer. Execução de purificação, ela denominou. Ouvi todo o resto, e a imagem de que Airte era pra mim ficou borrada. Execuções de possuídas por esses tais de ilóricos? Mais uma vez, mulheres descartadas por não servirem aos propósitos da religião ou dos outros. Eu tinha que impedir essas mortes de ocorrerem. E, também, desculpar-me com o Grinnmann. Quão falhos são os nossos julgamentos. Virei-me para ir embora e dei de cara com alguém que lá de cima dos corredores me observava.

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now