— Alô? – falei para o nada. 

 E o vácuo me respondeu com outro “Alô”.

Inerte naquela escuridão, pestanejei. Tornei meu rosto, na espreita de um inimigo, para todas as direções possíveis. Esperei que um urso furioso aparecesse ou algum homem desavisado. Entretanto, diferente do ambiente que eu acostumara dos meus sonhos, não havia árvores. 

Duvido, até hoje, que tivesse um céu ou uma terra.

Eu apenas era uma menina. Tinha em torno de uns catorze anos.

Não sabia o que deveria fazer ou se o silencio me guiaria. Após três minutos analisando a poeira cósmica que servia de fundo ao infinito, consegui retirar meus pés nus. E comecei a andar reto para frente. 

Ignorei o zumbido. Este invadia o meu ouvido a ponto de fazê-lo doer. Assemelhava-se com o barulho que faz uma interferência de rádio, mas conseguia distinguir algumas vozes inteligíveis. 

Uma volta de línguas que conhecia e outra onda das quais não conhecia, além de uma série de eclosões de várias espécies.

Por minha vez, meu cérebro não a recebia – a série – com “bem-vindos” e tentava afasta-la dos outros sentidos. Estes seriam importantes para minha compreensão do que iria ocorrer. 

A verdade é que consegui sentir um receio dentro de mim.

Não que estivesse com medo de morrer. Não é nada disso, pois a morte nunca foi meu maior problema.

Sabia que deveria preparar a mim mesma para quem viria. Não possuiria um arco ou uma flecha ou uma adaga para defender-me de suas armas, pois palavras são fortes demais para conseguir sempre desvia-las. A escuridão do espaço começou a distorcer-se em uma massa. Esta se contorcia como uma gosma com vida, a fim de mostrar as nuances de contrastes íntimos. Tudo isto em um jogo de sombras e luz. 

Prossegui andando ao pôr um pé na frente do outro. Nunca sabia o que seria jogado em cima de mim. Não sabia, tampouco, onde minha alma se perdia. Tinha a certeza sobre meu corpo não estar encontrado ali, pois me garanti de que a última ação minha foi dormir em minha cama confortável. E não na escuridão. 

A massa havia se aglomerado. E separou-se, deslizando-se em vários pontos interdistantes. Demorou para que cada pedaço enrolasse em si e fizessem esferas flutuantes. Como criança, não deixei de observar. E também não consegui me afastar.

Aproximei minhas mãos para perfurar as coisas com meus dedos. De inicio, parecia um monte de chiclete. Não tinha cheiro, mas aquilo se esticava bastante. Agitei ali dentro ao mover meu braço de um lado para o outro. Algo no fundo da esfera pareceu ter se aberto, pois senti uma lufada de vento frio contra minhas falanges. 

Entretanto, a estrutura continuava flutuando a aproximadamente dois metros do “chão” sem fazer algum barulho. Estranhei isto, ate que isto de dentro da esfera puxasse-me com força. Para dentro daquilo. 

Vivi a situação várias e várias vezes, por isso esperei com paciência. Não sentia dor ou ardência em meu corpo. As únicas sensações presentes eram o frio e a tez sendo massageada por alguma matéria. Em meio minuto, já estava dentro.

Não gostava de sentir meu nariz tampado pela massa estranha. Tinha medo, apesar de pouco demonstra-lo, de que pudesse sentir algum gás toxico. Vivia a situação várias vezes ao fechar meus olhos para ir dormir, mas pouco desconhecia se não haveria consequências sérias – no entanto, aquelas esferas não poderiam ser reais: como estaria fora de um sonho?

A menos que eu estivesse e aquelas coisas acontecessem. 

Encarei o ambiente onde localizava-me.  

Queimaduras e CicatrizesRead this story for FREE!