Era uma manhã absurdamente calada. Alguns pássaros voavam no céu limpo e azul-celestial de Vila Rica com linhas inclinadas, as folhas de algumas plantas ricocheteavam o ar que vinha dentre alguns montes da região de Minas Gerais (como ipês amarelos que coloriam a estação da primavera de maneira intensa, cattkeya harrisoniana, algumas éspecies de Epidendrum, Catasetum pileatum, amoreiras, mangueiras, bananeiras, abacateiros, pés de tangerinas e outras éspecies de ávores que pareciam arbustos aparados diariamente pelos funcionários) no interior de uma área estudantil que consistia em um enorme edíficio de cinco andares com um ar histórico de rococó (pintado de um azul claro e contendo detalhes em sua arquitetura), com um portão gigante na frente em estilo antigo.   Havia, também, algumas construções, geralmente para pesquisas ou para refeições, em seu exterior, além de haver três ginásios poliesportivos, uma piscina coberta, algumas casas de concreto que serivam para grupos de dança. Havia, também, um auditório, localizado inteiramente no quinto andar.

Poucos cachorros brincavam pelos cantos da área. Eram do próprio colégio.

O Colégio Carlos Drummond de Andrade era para pessoas de qualquer classe social. Tanto que podia-se localizar as mais diversas tribos adolescentes juntas ou separadas. Havia aquelas que se achavam tudo, aquelas que se achavam a si mesmos e aquelas que eram consideradas pelas que se achavam tudo como um nada total. Fora criado por um estudioso descendente de italianos nos meados dos anos da febre renascentista e da Independência Mineira, o que justifica a estética favorecida tanto exteriormente como interiormente. Através da evolução tecnocientífica com os anos, foram pondo mais mecanismos de comunicação, informação e segurança. Como os portões gigantes que cercavam a escola, o uso freqüente de notebooks nas aulas e algumas coisinhas. No entanto, não exatamente seria nestes detalhes, definições ou encantamentos que vamos prosseguir a nossa história.

Era uma manhã sim. Mais especificamente, uma terça-feira, dia de turmas do primeiro e segundo ano fazerem um duro danado na educação física. O sol poderia queimar os olhos, mas havia vento e o colégio proporcionava algumas combras para os alunos. Não em toda a escola. Havia algumas partes dela que eram abertas, para ventilação e iluminação natural.

No entanto, haviam partes totalmente cobertas.

Como a piscina descrita nos primórdios deste texto.

Era uma daquelas piscinas baseadas em exemplos olímpicos. Não era a piscininha do pré-escolar, era uma funda, com algumas linhas em seu chão que reluziam á luz de holofotes dirigidos a estes. Possuía arquibancadas também, e o cenário parecia um mini-ginásio esportivo.

Haviam pessoas espalhadas pelos bancos de concreto pintados de vermelho, azul e verde.

Entre elas, duas amigas. Filhas de pessoas importantes que simplesmente se achavam o máximo.

A maior delas possuía cabelos loiros enrolados nas pontas, parecia uma bonequinha e tinha olhos verdes. Vestia o uniforme da escola com alguma porção de pulseiras espalhafatosas em sua mão direita, tinha uma pele branquinha e calçava all stars róseos. Os seus olhos e dedos se focavam em seu celular, um Motorola, com uma capa rosa estilo oncinha. As unhas fortes de esmalte negro com reflexos azulado-esverdeados clicavam com precisão em botões. Sentava-se no alto.

A menor delas era uma menina que tinha uma pele parda, olhos cor-de-mel, lábios com brilho labial e utilizava brincos de argolas vermelhas carmesim, além de possuir a testa toda descoberta. Os seus cabelos eram negros e lisos como alguém tivesse jogado água neles, embora estivessem sequinhos. Estavam soltos como os da amiga, com a diferença que havia algumas mechas avermelhadas.

As duas conversavam sobre futilidades.

Ou assuntos de garotas adolescentes nas horas de intervalo. — Sabe quem vai participar do nado de hoje? – a de cabelos dourados quis contar a novidade com um sorrisinho no rosto, os olhos brilhando sem se desgrudarem do aparelho eletrônico em êxtase, fazendo a amiga se virar com os olhos ao alto e pensativa.

A parda estalou os dedos diante de sua conclusão e balançou os quadrins com um ar vencedor, fazendo "Ahá!".

— Os garotos mais bonitos do primeiro ano?! – Riu-se a outra.

A loira sacudiu negativamente a cabeça.

— Tudo bem que eles também vão estar lá, mas... - As sobrancelhas oscilaram e ela levantou o olhar. - Ai, Isabel, você nem imagina! Sabe aquela garota estranha? - irritou-se.

— Tsc, tsc... Deixe eu adivinhar... Yasmim ou Viviane? – interrogou a outra, como analisasse amostras de alienígenas, olhando de um lado para o outro.

— Nenhuma das duas. – Contou-lhe a primeira, dando em tapa na própria face e franzindo a testa – A notícia me conta que é alguém mais estranho do que essas daí juntas. - Simplesmente atirou-a.

Isabel arregalou os olhos, pasma.

— Mais?! - E pôs as duas mãos nas bochechas. - Impossível!

— Oi? Isa, pensa um pouquinho... Qual pessoa nessa escola supera quase em todos os sentidos?

A chamada garota põe a mão na frente da mandíbula boquiaberta.

— Okay... agora eu choquei, Mariana! Você está falando de Olívia Pêssego? – interrogou.

A garota sentada assentiu.

— Hmmm, dela mesmo. – concordou. – Sabia que todos os nadadores a desafiaram? Ouvi falar pelo meu irmão. Ele deve estar lá.

— Isso vai ser interessante! – Os olhos de Isabel cintilaram. – Em ver aqueles corpos em ação.

As duas deram um suspirinho.

— Não acho que isso vai ser possível. – uma voz de garoto interrompeu-as, fazendo-as girar as suas cabeças flutuantes. – Olívia é dita como sendo quase imbatível nas especialidades esportivas. Tem um enorme número de vitórias, segundo lendas que a cercam. Se elas forem verdade... ela provavelmente é algum tipo de Exterminadora do Futuro.

— Você?! De onde tirou todas essas informações? – atacou Mariana, o dedo indicador apontado para ele e boquiaberta diante do susto que sofria seu coração, como tivesse visto um fantasma pousar ali.

— As retirei de alguns veteranos daqui. – O garoto de cabelos cor-de-caramelo sorriu com suavidade, um brilho esperto surgindo de seu par de óculos rectangulares, dando um sorriso sorrateiro e um olhar vago, enquanto fecha o notebook. – Foi uma pesquisa interessante. – Fechou os olhos, suspirando.

— Por quê você está aqui? – Isabel perguntou, indignada, praticamente se mordendo. Não deixaria isto passar. – Os demais membros do Clube dos Nerds estão na Sala de Informática, jogando coisas inúteis. – falou com desgosto.

Ele não ousou devolver o olhar á garota de cabelos escuros.

Não necessitava.

Mariana não podia fazer a mesma pergunta, pois já sabia a resposta com o ritmo de seu entendimento. Ao contrário da figura de um nerd típico, aquele ali exalava sempre algo mais. Sempre foi assim. Sendo uma figura misteriosa que ninguém sabe de onde veio. Ele era um garoto alto, com uma estatura física palpável e ficava no seu computador de lá pra cá. Tinha olhos azuis como safiras e as mechas eram bagunçadas para os lados. Apesar de obter notas invejáveis em seu boletim bimestral, ele não era um assíduo frequentador de bibliotecas e de salas de ciências.

Ele andava por todo lugar.

No entanto, num segundo franco sentido da pergunta, Isa estava certa...

Que diabos ele fazia ali?!

— Estou em contato com a Natureza. – Foi o que ele disse, lançando um último olhar para o campo, com os jogadores em campo, entre estes, uma figura de rabo-de-cavalo.

Ele sorriu com gosto, antes de se virar para voltar ao jardim.

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