Capítulo 18

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Deitados no chão porque na cama não cabiam os três, Manuela desejava ter mais dez anos da própria vida só para já ter uma cama gigante. Tagarelava qualquer coisa só para fazer Gabriel sorrir. Rafael, por outro lado, se sentia mal por gostar tanto do como as coisas estavam. Gabriel sempre com eles, Manuela sempre presente. Tinha medo de como seria quando a escola acabasse e não os obrigasse a permanecer colados, todo dia, pelo menos, das sete à uma.

E agora Manuela tagarela deitada entre eles, encolhidinha, os olhos brilhantes, e o sorriso de menina. Rebola que é uma beleza, mas quando ela sorri e fica fazendo piadinha só para animar Gabriel, parece que ele se apaixona de novo.

E tudo isso com a bênção da própria mãe. Coisa que Gabriel nunca vai saber como é, mas que Rafael, de olhos fechados, tinha quase a certeza que nunca mais vai ter tanta paz na vida como naquele quarto.

— Eu acho que eu não vou fazer a segunda fase. – Todo mundo entendia que não era o cenário ideal para Gabriel fazer o vestibular, então, a princípio, nem Manuela, nem Rafael, responderam.

Embaixo do olho esquerdo de Gabriel inflamou, ficou cheio de pus, o olho mal abria. Tinha o corpo entupido de antibiótico e, mesmo assim, a inflamação vencia. Uma das costelas trincadas ainda se refazia, aos poucos, e ele sentia que ia chover só pelo jeito que doía. Os dedos das mãos e dos pés viviam gelados e ninguém sabia o porquê. Só esperava que fosse reação de algum dos muitos remédios que receitaram para ele tomar.

— Eu não posso te obrigar a fazer o que não quer – Rafael respondeu depois de um tempão – Mas você já parou para pensar o que vai ser da sua vida se não tiver faculdade?

— Às vezes eu tenho vontade de abandonar vocês. – Gabriel não falava para ferir. Falava porque precisava desabafar e porque passava madrugadas demais acordado esperando dar o horário do próximo remédio, para não pensar em todas as possibilidades do que seria de sua vida.

— A gente entenderia. – Rafael quem disse, porque Manuela só sabia esconder o choro.

— Eu não gosto da ideia de não ter para onde ir. Nem para onde voltar.

— Você quer voltar para a sua casa, Gabe? – Manu perguntou, mas não queria saber a resposta.

— E tem como? – Gabriel aprendia a não chorar só porque chorar doía muito. – Mesmo se eu falasse para o meu pai que eu não estou mais com vocês, que eu "desisti da ideia de ser gay", cê acha que a minha vida ia ser fácil? Eu não ia poder nem falar com outro cara, mesmo que fosse para pedir troco de padaria, que meu pai já ia...

— Não chora, Gabi.

— Eu tô tentando, porra.

— Se você quiser chorar, tudo bem – Rafa trocou de lado, foi para o lado do Gabi, e o puxou para o ombro – 'Tamo aqui pra isso, também.

Ficaram quietos porque nenhum deles sabia o que fazer. Nem o que dizer. Nem Manu, nem Rafael tinham passado por uma experiência assim. Gabriel sempre disse para eles erguerem a cabeça e aceitarem quem são, mas Gabriel ter sido expulso os levava a um outro patamar. Um caos moral que pegou todo mundo desprevenido.

No fundo, Gabriel sabia qual seria a reação do pai quando soubesse, mas ele esperava poder controlar e administrar melhor quando a crise chegasse. Ele queria terminar a faculdade primeiro, arrumar um emprego legal, poder escolher sair da casa do pai, brigado ou não, fosse como fosse. Queria ter dito tchau para a mãe e dito que não a culpava. Queria não se sentir tão envergonhado.

— A gente só vai conseguir ser o que quiser quando tiver tudo – Manu retomou – Foi mais ou menos o que o meu pai falou para o meu irmão quando ele quis largar o ITA por causa da namorada. A gente não tem nada onde se segurar, a gente depende dos nossos pais, a gente não tem nem para onde correr.

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