Capítulo 2 - Lammar

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Eles acorrentaram minhas mãos e me jogaram em um saco de pano fedido que impedia a minha respiração. Nós andávamos para algum lugar. Aquilo piorava minha agonia e me causava um pânico maior do que eu pensei. Estava sem a Sam e se eles não me mataram no desfiladeiro era porque algo muito pior viria com certeza e agora eu não tinha nenhuma ideia do que era.

E como num baque a luz veio aos meus olhos e cai no chão firme e áspero, machucando minhas mãos que não tiveram coordenação o suficiente para se equilibrar no impacto. O sangue brotou das minhas palmas e eu segurei meu pulso devido a uma leve torção. Estava no meio da cidade, era Lammar, meus olhos reconheceram as casas luxuosas que podíamos ver ao longe. Nunca tinha vindo aqui antes, mas dava para ver as ruínas que estávamos algum tempo atrás e, mesmo assim, elas estavam foram do meu alcance.

E isso significava que estava longe das fadas, da proteção da Frida. E mais perto deles. Ainda mais porque apesar dos humanos que existiam em Lammar, aqui era um dos ninhos dos demônios. Uma das seis grandes capitais demoníacas do nosso mundo, tirando a capital, o centro. Senti os músculos do meu pescoço tremerem com aquela informação.

Engoli a seco, quando puxaram minhas correntes para dentro de uma das casas em ruínas, a casa era banhada pelo que restava de um dos lagos de Lammar. Não que qualquer humano pudesse entrar naquelas águas e beber delas confortavelmente. Porém, era o que restava para nós. Aquela casa era extravagante e rica mesmo para o padrão daqueles monstros, tanto que vi muitos humanos circulando lá dentro, também presos por grilhões, porém na sua maioria eram mulheres e homens extremamente jovens e com rostos bem femininos devo dizer, um padrão que eu não estava acostumava a ver normalmente. Só que eles estavam bem machucados e de uma forma, digamos, diferente das pessoas que trabalhavam nas ruínas, entrando e saindo de diversas portas. Um garoto saiu cheio de hematomas pelo corpo, quase nu. Seu olhar sumia para um local que eu não conseguia descrever.

Franzi o cenho, o que aquele lugar era?

Entramos em uma sala aberta e o cheiro de suor, perfume e fumaça entrou os meus pulmões. As paredes vermelhas, com uma leve textura e alguns rasgados, camuflavam o céu lá fora e deixavam o ambiente ainda mais assombroso. Olhei para a varanda e conseguia ver as águas imundas do lago tocarei as areias avermelhadas da praia, que eram o reflexo vivo do céu.

— Ajoelhe-se, humana! — me derrubaram e eu rosnei pela dor, mordendo meus lábios sem querer. Aquilo me enfureceu ainda mais.

— A quem? — despejei em forma de palavras minha raiva.

Eu não tinha visto ninguém lá dentro e, de repente, apareceu um par de óculos verdes brilhoso com a lente azul espelhada a alguns centímetros de mim, eu me via dentro deles e não gostei do que vi. Estava apavorada. Depois o restante do corpo foi surgindo lentamente se descamuflando do resto do ambiente.

Um demônio com a pele esverdeada, tão verde quanto aqueles óculos, que deviam ter pertencido a algum humano antigamente, possuía pequenos cifres arredondados na testa e segurava meu rosto; suas mãos grudavam na minha pele fria. Era uma sensação no mínimo estranha. Porém, ele rapidamente tirou seus óculos e olhou para as minhas mãos, ainda marcadas pela maldição do demônio caído, cheia de tatuagens negras.

Aquelas írises amareladas se repuxaram num sorriso que mostrou todos os seus dentes, as partes roxas acompanhavam minha respiração. Puxou minhas mãos rompendo as correntes com facilidade e começou um carinho apavorante nelas, traçando as linhas escuras dos desenhos.

— A mim, humana, Samael, o Príncipe da Perdição! — sua língua bifurcada passou pela sua boca de uma forma bastante nojenta e aquilo arrepiou meus cabelos por inteiro e eu comecei a desconfiar de porquê aqueles machucados eram diferentes dos nossos.

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