Capítulo 17

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— Quando Rafael era pequenininho, – Dona Lúcia misturava uma massa de biscoito com a mão, numa tigela grande, enquanto Gabriel cortava pedacinhos bem pequenos de goiabada, sentado à mesa da cozinha – toda vez que ele estava triste, a gente fazia goiabinha.

— Só comi goiabinha de pacote.

— Ê, menininho da apartamento... – Ela sorriu, amassando a massa até que ficasse lisa e sem vestígio de farinha. – Nunca comeu goiabinha quente?

— Não.

— É assim que o Rafael gosta. Quando ele era menor, a vó dele ficava assoprando para ele comer, porque o menino não podia ver sair do forno, que queria enfiar tudo na boca.

Dona Lúcia falava praticamente sozinha. Gabriel só cortava a goiabada como ela pediu, nem conversa queria. Abatido. Já conseguia abrir ambos os olhos, mas só enxergava com um. Desacostumado e sem noção de dimensão, ele acertava o dedo com a faca, mas não a ponto de se cortar. Odiava ter que cortar aquilo. Por ele, se estivesse em casa, estaria enfiado no quarto e não faria questão de ser legal com ninguém.

Mas era a tia. E se a tia chamou e pediu ajuda, ele iria. Mesmo não querendo.

— Agora, ó: Eu não vou fazer essa parte, você vai. – Com a massa aberta em cima da mesa, ela mostrou uma xícara de café e foi fazendo pequenos círculos na massa com a boca do utensílio – Entendeu como que faz?

— Entendi.

— Ótimo, então vai cortando aí, que eu vou untar as assadeiras.

Dona Lúcia sabia que Gabriel não queria conversa, mas não parou de falar com ele. Ela é como Rafael, meio calada, não gosta muito de fazer amigos, desconfiada com todos. Nunca namorou de novo, depois do ex-marido, Dona Lúcia só queria saber de ter sossego e criar seu menino. Enquanto quebrava um ovo e preparava o pincel, contava das coisas que Rafael e ela faziam quando estavam tristes.

Mas, em alguma hora, enquanto Gabriel, miúdo, só dava ouvidos, ela sentiu vontade de contar para ele o que ela e Rafael nunca contaram para ninguém. Gabriel apanhou do pai, e ela apanhou de marido, os rumos e as situações são diferentes, mas a mágoa é parecida.

Os dois sofreram na mão de homens que prometeram amor.

Dona Lúcia mexia muito com as mãos, colocou um café no fogo e foi bater chantili, nem tinha porque bater, goiabinha não pede creme junto, mas, só para não se render às mágoas e não ficar parada, ela pegou uma caixinha de creme de leite. Montou a batedeira na mesa e, por cima do ruído, ela continuou falando.

— Não é a mesma coisa que o seu, Gabi, mas...

— Não, tia, é pior.

— E tô viva, não tô?

— Tá sim.

— Só que fiquei surda desse ouvido – Ela indicou a orelha direita – Só não conta pro Rafael, que ele não sabe.

— Você não ouve nada desse ouvido?

— Nada, nada. Mas, é como se eu tivesse dado uma orelha para sair daquele casamento. E se Deus me permitisse, eu daria até as duas. Tô muito melhor agora, Gabi. Dói, não é fácil, eu não tinha um dinheirinho sequer, mas...

— ... agora é só colocar a goiabada no meio do círculo, né?

— É. E daí junta as duas pontas assim... – Ela deixou a batedeira girando e mostrou como se fazia – E para não soltar na hora que tiver assando, porque a massa cresce um pouquinho, cê dá um beliscão em cima.

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