Capítulo 4 - Victor

51 8 0

“E pra você, amigo, eu digo
É muito normal
Ficar só eu comigo mesmo”
- Eu me basto, Boa Praça

Cheguei em casa com o cheiro horrível de cerveja impregnado no meu corpo. Aquela... Cerrei os dentes os dentes para conter o palavrão.
Joguei a chave do carro sobre o móvel da sala e tirei a camisa. Respirei aliviado por estar finalmente sozinho. A melhor coisa que havia feito foi pegar parte da grana do meu fundo quando fiz dezoito anos e comprar um apartamento. Morar na mansão com meus pais muitas vezes era um porre. A desculpa de ficar mais perto da faculdade havia bastado para minha mãe, mas como meu pai me queria pela manhã todos os dias na empresa, não gostou muito, porém, desde que eu cumprisse meus compromissos ele não dava a mínima.
Joguei a roupa suja no cesto do banheiro e entrei no box. A água quente escorrendo pelo meu corpo aliviou um pouco meu estresse. Ainda estava com raiva da caloura que havia jogado cerveja em mim.
Poucas pessoas me desafiaram na vida. Elas eram meus pais. Quem aquela caloura pensava que era?
Respirei fundo e enfiei a cabeça debaixo da água quente. Não se valia a pena dar o troco. Era melhor simplesmente deixar tudo para lá. Renato com certeza iria colocar lenha na fogueira, mas para a boa relação com meu pai, talvez fosse melhor evitar qualquer confusão na faculdade.
Eu tinha dezenove anos, qualquer outro cara na minha idade estaria preocupado com uma infinidade de outras coisas, e não em assumir um império milionário construído pelos outros membros da família antes dele. Como filho único as coisas eram ainda piores, o tanto que minha mãe me mimou, meu pai cobrou de mim.
Ficar no Brasil e fazer a faculdade de direito havia sido uma grande queda de braço. Para o meu pai eu deveria estar em alguma das melhores universidades do mundo. Chegou a me matricular em Chicago, mas eu não fui, um mestrado, talvez. Para um mestrado, talvez, mas por hora ainda gostava de me iludir com a possibilidade de ter uma vida como qualquer outra.
Fechei o registro e sai do chuveiro. Cheirei a mim mesmo algumas vezes para ter certeza de não estar mais empregando com o cheiro da cerveja barata.
Sai enrolado em uma toalha enquanto secava os meus cabelos em outra. Meus pés deixavam pegadas molhadas no caminho para o meu quarto, mas não me importei. Só queria me atirar na cama e jogar vídeo game até a manhã seguinte enquanto a aula não começava de verdade e eu tinha que engolir os livros de Direito Penal. Torcia para que não fosse o mesmo professor do semestre passado.
Liguei o videogame e me desliguei do mundo pelas próximas horas.

Nunca te esqueciLeia esta história GRATUITAMENTE!