Flor de Lótus - a mudança final

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Dentro da igreja do primeiro episódio, reaparece Lia, sozinha. E reza em agradecimento.

- Obrigada meu Deus por estar viva. Apesar de tudo, eu estou aqui. E tenho a oportunidade de fazer diferente a cada dia. Reencontrei o amor da minha vida, e esclareci desentendimentos do passado. E também achei meu filho desaparecido. A maior dor que já sofri foi perdê-lo. Não tenho coragem de interferir em seu caminho, mas estou acompanhando o mais perto possível. Antes de ser a mãe que ama, eu sou alguém que quer vê-lo feliz. Não carrego dor Senhor, e só te agradeço pelas pessoas e histórias maravilhosas que me apresentou. E pelos Vinícius.

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Alice entra na igreja, andando bem devagar, como uma criança que ainda não sabe direito o que está fazendo. Aquele é um território estranho para ela. As duas se encaram.

- Parece que já te conheço - diz Lia.

- Sou só uma mulher andando pelo mundo. Uma mulher que não tem nada demais. Mas que já sofreu muito, de várias formas diferentes, em todos os quesitos da vida. Mas no Amor parece que fui pior. Sofri e fiz sofrer. Amei demais.

- Então você é parecida comigo menina. Te olho, e vejo um pouco do que fui ontem. Mas fica tranquila, toda essa dor, essa tristeza, tudo isso passa.

A voz de Lia ecoa pela igreja. Então, ela tira um cordão do pescoço, com um pingente de uma flor de lótus, e coloca em Alice, enquanto diz. "É só um mimo". E sai.

Alice se vê sozinha diante do altar. E aproveita o silêncio do espaço. Não sabe rezar, mas sente uma estranha paz ali. De repente, como em uma miragem, uma flor de lótus como a do pingente vai se formando aos poucos, acima dos santos. Agora, além de ouvir, será que Nina também via imagens de outro mundo?

A flor de lótus vai sendo montada aos poucos, como em uma tatuagem. E Alice se lembra da sua flor de lótus nas costas. Prende os cabelos. Demoradamente nossa atenção se volta para a tatuagem dela. E aí toca Alive, do Pearl Jam. É realmente muito doido essa música dentro de uma igreja, considerando que Alice nem conhece muito Pearl Jam, começou a ter contato a pouco tempo com a banda, apesar de ser um grupo antigo. Digamos que ela deixou de ver algumas coisas por uns anos.

Todos esses elementos de alguma forma mágica parecem se combinar. Igreja, lótus, Pearl Jam, Alice. É tudo uma misturada só, como tem sido a vida dela. A música deve ter entrado por causa da frase "ainda estou vivo".

Alice se vira para a frente com um olhar firme. Ao fundo, a flor de lótus se completa. Ela olha adiante como se estivesse cercada por uma grande plateia, que acompanha sua interpretação de atriz e seu texto de dramaturga. Que viagem doida! Engraçado que Alice sempre teve o sonho de representar e escrever. "É, tem sonhos que realmente nunca morrem", pensa. Era como se ali, dentro daquela igreja, ela conseguisse realizar um pouquinho daquilo. E diz.

- Como viver? Como amar? Será que tudo se resume a trocas de calor, como na peça Arcádia? Foi pra aprender "isso" que cheguei até aqui? Foi pra aprender isso que cheguei até aqui? Será que eu consigo? Será que um dia vou amar e ser amada na mesma proporção? Ou será que isso não existe, um sempre ama mais que o outro? Será que vou ter um amor sem fim? Ou será que acabaram as minhas chances?

A igreja não responde Alice. Ela segue refletindo, persistindo.

- Mas como posso conseguir o saber do coração? Só poderás conseguir este saber vivendo plenamente a sua vida. Tu vives plenamente quando viver também aquilo que nunca viveste. - Jung. Será que ele é que estava certo? Será que o amor são apenas duas pessoas imperfeitas tentando viver o novo a cada dia, mesmo em meio as dificuldades, ao tédio, a rotina, ao cansaço? Será que é possível viver plenamente, e viver aquilo que nunca vivemos, com uma mesma pessoa, toda a vida?

Ela então desafia a plateia imaginária.

- Vocês pensam que sabem a resposta né? E ficam julgando! Vocês não sabem nada, ou se sabem, é muito pouco. Quem nunca fez uma merda, uma loucura por amor? Que atire a primeira pedra!Aposto que aí existe todo o tipo de caso, ou entre os amigos de vocês, ou na família de vocês. Ouvi falar de gente que se moveu de país atrás do amor. Ouvi falar de traição debaixo do mesmo teto. Ouvi falar até de crime passional! (tiros interrompem Alive)

Silêncio. Alice está com raiva. Muita raiva. De si mesma e do mundo. Mas ao mesmo tempo tem um amor desesperado dentro de si. E corre pra frente como se fosse abraçar a plateia. Aquele abraço de quem não quer perder. Grande, forte e apertado. (já falamos sobre isso)

Alive volta e toca em um volume que parece que vai ensurdecer. Alice tem que elevar a voz pra competir. E fala pra Deus, ou seja lá quem for, e pra sua plateia também. Está no ápice da sua performance. The show must go on.

- EU TO AQUI HEIN. EU AINDA ESTOU VIVA, PORRA. VIVA! (E ri como louca e como palhaça. E como Cleópatra e como menina. E chora ao mesmo tempo. Como já dissemos, ela tem uma mente complexa, de outro mundo. E tem tudo e nada dentro de si!)

E Alive toma conta da igreja, numa espécie de festa profana. E ela dança, umas das coisas que mais gosta de fazer. E todos os outros personagens da história reaparecem e cantam e dançam juntos.

Oh, I'm still alive

Yeah, yeah I, oh, I'm still alive

Yeah, yeah I, oh, I'm still alive

FIM

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