Quem matou Marcos Ramos?

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O delegado Valter Azevedo vigiava o relógio. Se não demorasse muito, talvez ainda encontrasse sua filhinha acordada. Encheu o copo plástico de café antes de entrar na sala para interrogar a esposa da vítima, Raquel.

Marcos Ramos, de 45 anos, foi assassinado na cozinha da própria casa com a mesma faca usada pela família para destrinchar o peru na ceia de natal. O corpo foi encontrado numa poça de sangue que se misturava ao vinho barato da taça espatifada ao lado. Um corte certeiro na jugular e um olho roxo era tudo que a vítima tinha.

— Boa noite, senhora Ramos — Azevedo cumprimentou a mulher de olhos avermelhados — Pronta para começarmos?

— Sim, senhor — ajeitou a postura enquanto o delegado se sentava.

— Quem estava com a senhora hoje à noite?

— Arthur, irmão do meu falecido esposo, e meus dois filhos, Daniel e Júlia — respondeu numa única respiração, e segundos depois complementou: — Não foi nenhum de nós, tenho certeza disso! Alguém deve ter entrado na casa e-

— Quando o crime aconteceu?

Azevedo a interrompeu principalmente por saber que havia nenhum sinal de arrombamento no imóvel.

— Depois da ceia. Estávamos trocando presentes quando...

A mulher baixou o olhar para as mãos e o investigador pigarreou. Era uma situação difícil, é claro, mas para Azevedo era apenas mais um dia de trabalho; e ele só precisa terminar este caso para ir para casa encontrar sua família.

— Arthur me deu um presente, um colar. Me-meu marido não gostou muito e queria que fôssemos para o quarto. Era noite de natal, ele não podia... eu não queria subir.

— O que aconteceu depois?

— Daniel deu um presente para a irmã mais nova, mas era só uma caixa vazia, foi uma brincadeira dele.

— Não me refiro a isso. Seu cunhado discutiu com o senhor Ramos?

— Sim, discussão normal de irmãos.

Com uma respiração profunda, Azevedo decidiu expor as informações que possuía para Raquel.

— A senhora passou pelo hospital municipal cinco vezes este ano, e todos os registros dizem que tinha marcas de agressão. O que devo pensar sobre isso?

— Fui até o hospital para receber tratamento médico. Com todo respeito, o senhor não deve pensar nada.

— Seu marido agredia a senhora?

A boca da mulher se abriu imediatamente, espantada com a pergunta feita sem rodeios. Com o queixo estremecendo, lágrimas escorreram pelas bochechas.

— Repetirei a pergunta. E devo te lembrar que mentir para a justiça é crime. O marido da senhora já a agrediu?

— Sim.

— Foram aquelas cinco vezes ou tiveram mais?

— Mais.

— Quantas?

— E-eu não sei, perdi as contas — Raquel encolheu os ombros, e por alguma razão sentiu que precisava explicar — Marcos ficava violento quando bebia, mas sempre trabalhou muito para sustentar a mim e meus filhos.

— Por que a senhora nunca denunciou as agressões?

— Eu ia denunciar e o quê?! O que ganho como cozinheira mal dá para pagar as contas. Não tenho família para me abrigar! E quando perguntassem aos meus filhos onde o pai deles estava, o que diriam?

— Então era uma situação muito difícil que a senhora vivia, não é?

— É claro!

— Ficar livre das agressões é um forte motivo para...

— Não fiz isso, não sou uma assassina. Aguentei muito sofrimento durante anos e nunca sequer pensei em matá-lo. Por que eu faria isso justo na noite de natal?

— É o que estou tentando descobrir.

Azevedo tomou um gole do café, grato pelo amargor deixá-lo alerta instantaneamente.

— Pode ir, aguarde lá fora.

Raquel saiu do escritório com um suspiro de alívio, que foi reprimido ao ver Júlia ser chamada para o interrogatório.

Marcas do Presente (conto)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora