Absolution

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As a child, with your mind on the horizon
Over corpses, to the prize, you kept your eyes on
Trying to be the chosen one

All those things that you desire
You will find here in the fire

-Absolution, Ghost

Tarde da noite, hora e local marcados. 

Hora de encontrar a Rainha.

Com o saco de esterco cheio de ossos humanos nas costas, Viviana Amadeus se dirige ao sul do matagal que percrustava os arredores do rancho que por toda sua vida vivera. 

A dificuldade de carregar tamanho peso não a incomodava tanto quanto a vontade de receber seu pagamento pelo trato cumprido. 

Grilos berravam suas canções incessantemente na noite silênciosa, assim como  mosquitos entre outros insetos demonstravam sonoramente sua insignificância de forma insistente: pareciam tentar compensar sua inutilidade das formas mais irritantes que pudessem encontrar, tornando a pele da garota um banquete quando esta passava por eles.

Uma fumaça no céu a ajudou a localizar aonde seu encontro com a mulher-fantasma de sua infância seria. O luar minguante e quase apagado por nuvens, parecia querer se esconder do que aconteceria. 

Ao chegar ao ponto escolhido, Viviana solta o saco e olha a sua volta, encarando cinco presenças das quais não esperava que também estariam lá. A Rainha Elizabeth invocara outras mulheres, que se ajoelham mediante ao fogo que queima no centro do círculo que formam com larga distância entre uma e outra. 

Ao lado do fogo, o poço que seus avós deixaram de usar há muito tempo, pois pouca ou nenhuma água saía de lá, resultado de uma construção mal localizada que Horácio consertara relocando o emaranhado de pedras em redondo alicerce a alguns metros mais para a esquerda. 

Ninguém se movia. Só o som dos estralhos que o fogo solta cortam o ar. Viviana dá um giro completo em seus calcanhares tentando reconhecer os rostos que vê no circulo ao seu redor. Mas estes estão cobertos por véus transparentes de cores diferentes. 

A garota leva um susto quando estas de repente se põe de joelhos ao mesmo tempo e começam preces baixas e persistentes que apesar de Viviana não entender o que dizem, podia sentir o formigar e o fremir que estas causam na terra sob seus pés. 

Incessantes. Repetitivos. Como encantamentos que institivamente oferecem entendimento a Viviana em saber no que resultariam. Clamavam por algo além do que suas meras vozes poderiam chamar. Pediam com sofreguidão, querer e resiliência tão profundo que por um momento a menina se sentiu compelida a unir-se ao coro, apesar de não saber o que dizer. 

Sua visão periférica denuncia uma nova presença tomando forma ali.

O andar ferino do corpo da mulher que lhe observara de canto por boa parte das noites de sua vida a embasbaca por um momento. Havia beleza de forma agressiva, bélica ordem em seu corpo, suméria dissidência, como nunca a vira antes. Seus passos, combinados com o movimento cálido de seus quadris diziam por si só palavras que nenhuma língua humana parecia capaz de reproduzir. 

"Por fim, Ghuleh Amadeus." Esta confere com voz talhada em polidez a jovem garota de apenas dezesseis anos que parecia impressionada em sua presença. "Vejo que faz de sua palavra o valor de sua honra. Veio cumpri-la." A Rainha, que possuía um uma coroa de pérolas negras e ouro cravada sobre sua cabeça além de um vestido que em alguma época passada fora claro sinal de superioridade ás massas, coloca uma mão sobre a outra no nível de seu ventre e dirige a palavra a uma aquiescente Viviana. "Trouxe o que lhe pedi?" 

Viviana não se move. Olha ao seu redor para ver se alguém mais tem alguma reação parecida com a sua própria a pequena entrada trinufal de Elizabeth.  Vendo que o silêncio e a inércia das outras ainda continua estranhamente, apenas engole em seco e se dirige novamente a Rainha. "Sim. Me diz logo o que eu quero saber." 

Haresis DeaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora