13 - Ilóricos - Parte 2

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É estranhamente consoladora, a forma, com a qual, eu fui recebida pelas mulheres que já estavam aqui. Suzana, uma colombiana aguerrida, foi a primeira a me dizer para ficar à vontade. Mencionou o quanto foi duro estar longe dos filhos e que esperava retornar para eles rapidamente.
- Estou feliz por finalmente as últimas Sete estarem aqui. - Ela resmungou enquanto ia à frente, ao me mostrar o caminho para o nosso alojamento. O seu andar tem um despojar que foge às pressões da feminilidade estereotipada.
As expressões sisudas e cabelo curto desenhavam-lhe uma imagem amasculinizada. Como somos todas diferentes! Podia ver mulheres de várias idades, etnias e corpos andando em diferentes corredores. Jogando-me seus olhares cheios de perguntas e admiração. "Quem somos?", gotejava na minha mente como uma torneira quebrada.
- Aqui está o seu quarto exclusivo. - Ela colocou ênfase no adjetivo que havia dado ao meu aposento com sarcasmo.
- E onde vocês ficam? - Enfatizei a minha preocupação diante da porta aberta por Suzana.
- Nos dormitórios não exclusivos. - Ela brincou com a intonação outra vez. - Você é uma das sete líderes. - Ela pausou e me encarou bem no fundo dos olhos com um uma expressão cansada. Baixou a cabeça e passou o dedo indicador na parte superior do umbral da porta.
- E também todas estão com meio medo de você. - Voltou a me olhar nos olhos.
- Por quê? - Senti-me incomodada e cruzei meus braços, ajeitando a postura.
- Uma de vocês matou a nossa líder, uma está ferida e as outras seguiram a assassina. Você precisa provar que é digna de confiança. - Ela ampara o cotovelo de forma descolada e coça a testa franzida com o dedão.
- Faz assim, descanse, tome um banho e mais tarde teremos o velório como é feito com líderes do norte.

Ela não disse "deste mundo". Algo inconsciente nela já aceitou que aqui é aqui. Ela percebeu que eu divagava e saiu da porta, abrindo caminho.
- Não vai entrar?
Quando ouvi isso, a imagem de Dulan morte pairava dentro de mim.

*

Um perfume doce e fresco subia dos meus ombros como brisa que suaviza um dia de verão berrante. Deitei-me mas as imagens de Dulan ensanguentada não descansavam. Teimosas batiam à porta com batidas e, às vezes, pontapés. O tempo passou rápido e da porta, o som que vem agora é causada pela mão incisiva de Suzana. Ao sair, deparei-me com o seu olhar que tentava amenizar a tensão no ar. Nos corredores paralelos ao nosso central, pelo muro baixo, sob a claridade morna do sol que vem dos retângulos de vidro no teto, podia ver as outras mulheres me olharem com curiosidade e, também, medo. Quando pensei em perguntar a respeito, lembrei-me de que faço parte do grupo que matou a líder de maior importância aqui. Calei-me. Ocupei meus ouvidos com os sons das botas por todo o lugar, principalmente os passos perfurantes da Suzana e desejei ter encontrado algum olhar que me recebesse com aconchego e humanidade.

*

O corpo de Dulan jazia dentro de uma câmara de vidro bem limpo e cristalino, de uma certa finura. O rosto era plácido e contrastava com a forma que morreu. Ou melhor, que foi assassinada. Os seus cabelos caem pelos ombros assim como os da minha avó paterna. Angela lutou a contra a segregação na África do Sul e, então, hoje em dia, lutava contra o racismo e o preconceito. A face dela também transmitia paz no funeral. Talvez essa seja a cara de quem morreu depois de viver uma vida dizendo "sim" ao que chamava o coração.
Três círculos, um dentro do outro, circundavam o caixão que se encontrava no centro. Enquanto eles se formavam, mão por mão, gentilmente, me levava para o lugar em que eu deveria ficar e ele era na fileira mais próxima a Dulan. Foi aí que Melanie sorriu pela primeira vez para mim e foi doce. Punia me jogou uma piscadela. Ada, uma das nossas que veio da Nigéria, me deu um sorriso tímido e logo desviou o olhar. Janine, a francesa que eu viria a conhecer mais, só me olhou rapidamente e depois se focou no corpo falecido ali. Tive a impressão de que ela não gostava de mim. Após alguns minutos de silêncio, três de nós, uma de cada círculo, vieram ao centro e cercaram Dulan num triângulo. As três estavam concentradas com o olhar profundo. Então, juntas falaram:
- Tocar "falas de relevância psíquica".
De um alto falante debaixo do caixão, começou a se reproduzir com a voz da líder falecida, um ruído. Airte, que se encontrava fora do círculo, na ponta oposta a Grinnmann, veio até onde jazia Dulan e tocou o caixão, solicitando:
- Cancelar "leitura de relevância psíquica".
Grinnmann soltou um muxoxo de insatisfação e se segurou para não menear. Contudo, caminhou até Airte e cochichou algo para ela. Airte o encarou com um olhar gélido, virou-se para nós e discursou com as mãos abertas:
- O norte caiu na maldição por causa dessas tecnologias. A morte veio e tudo secou. Agora, uma ala liberal da Confederação quer trazer algumas delas de volta. Estou certa de que Dulan não gostaria de tê-las em sua despedida.
- Desculpe-me, mas a senhora é da seita sulista agora? - Grinnmann perguntou com um desafio disfarçado de polidez.
- Claro que eu não sou. - Airte manteve o olhar quieto e furioso. Encarou cada uma de nós. Quando chegou na minha vez, não quis, mas desviei o olhar.
- Ó filha, não temas. - Airte sussurrou com paixão cálida e me abraçou como se eu fosse uma alma perdida. Logo, em espanto, senti o meu rosto quente de lágrimas e o peito inflado de emoção. Ela me tocou com o aconchego que eu queria sentir. Sem explicação, ela alcançou a minha alma e consegui sentir paz como não sentia desde que havia sido demitida por um assediador. A imagem dele na minha mente foi substituída pelo perfume da minha mãe, a mão macia do meu pai, os olhares aninhadores de Agnes e os abraços de minha avó. Angela tomava o espaço de uma Dulan assassinada deitada em frente de mim e eu estava entregue a todo aquele sentimento quente. Eu ouvi umas outras fungando, pois choravam. Abri meus olhos ligeiramente e de longe, vi Grinnmann me olhando. Pude sentir a desaprovação em seu rosto.

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now