Capítulo 9

4.2K 1K 211

Ops! Esta imagem não segue as nossas directrizes de conteúdo. Para continuares a publicar, por favor, remova-a ou carrega uma imagem diferente.

Rafael chegou em casa feito um foguete, largou a mochila no sofá e foi correndo para o colo da mãe: tinha acabado de sair da terapia e estava aos pedaços.

A mãe, que há quinze anos não saía da máquina de costura, não estranhou o menino bater o portão de entrada, nem quando deixou a porta da sala aberta, mas estranhou um bocado quando ele chegou, deus um beijo de oi mais melado que o normal, e deitou a cabeça no seu colo, meio forçando que ela largasse a máquina, meio forçando que prestasse atenção nele.

A via atrás daquela máquina oito horas por dia, todos os dias, fizesse sol ou fizesse chuva, costurando o que lhe pedissem, mão de obra de estudou para ter ideias, mas não mete a mão na massa: de-lhe um botão que ela sai com um vestido de noiva, o único ganha-pão da casa desde que ela decidiu abandonar Santa Rita, sua cidade natal, para escapar de um casamento abusivo e que só lhe rendia surras.

Na infância, esse era o principal motivo de Rafael nunca falar com ninguém. Ele presenciava tudo, estava sempre colado na mãe, sempre ao redor dela, e, quando o pai erguia a mão, ele calava, chorava, e aprendeu que calado não apanha nunca.

Pois foi Manuela e sua boca solta, seus dias felizes, seus pais que nunca desistem, chegar perto dele, que ele aprendeu que nem todo mundo vai machucá-lo, nem todo mundo existe para machucar sua mãe e que, em algumas pessoas, dá para confiar, sim.

Mas, ainda assim, era na mãe que ele confiava mais. Um dia ela chegou em seu quartinho de criança e perguntou se ele queria ir com ela para onde ela estava indo. Na época, ele próprio não sabia para onde ia, mas, palavras de um menino de seis anos, ele iria para onde aquela mulher fosse.

— Mesmo se for para bem longe do seu pai?

Principalmente.

Desde então, a única pessoa que ele confia, cegamente, é na mãe. Não tem padre, não tem igreja, não tem amigo. Eram ele e a mãe contra o mundo. Ela, com seu ofício de mulher que cresceu para ser dona de casa, ele, crescendo bonito, esperto, e sempre com o coração maior que o mundo.

Por isso, quando voltou da terapia, sentia-se imundo. O leitor podia pensar que foi pelas coisas que ele fez, mas era pela que não disse. Não tem mentira entre ele a mãe, nunca teve. E agora saía de casa para se encontrar com seus amores e não respondia quando a mãe perguntava onde ia. Chegava em casa com um sorriso gigante e não respondia quando ela perguntava o que tinha acontecido de tão bom.

E chegar na terapia para contar a uma profissional, só o fez perceber o quanto esconder da mãe o fazia mal. Era como se ele traísse a confiança da única mulher de seu mundo. Era como se ele agisse pelas costas dela.

— Mãe, – ele disse, doido de vontade de chorar, a bochecha encostada na perna dela, abraçando suas panturrilhas e sentado no chão – cê vai me amar mesmo se eu for viado?

Para Sempre TrêsLeia esta história GRATUITAMENTE!