capítulo 4.

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É incrível como tudo pode mudar com apenas umas palavras. Já se passaram umas semanas desde que voltei. A minha presença é ignorada para quem me importa e sou a pessoa mais falada pela escola – não no bom sentido. Eu fiz uma asneira grande, eu bem o sei. E não o posso mudar agora, por muito que o queira. Foi a decisão que achei acertada. No entanto, palavras proferidas de maneira errada levou à distorção da história toda.

"Pensava que ela tinha dado numa de Hannah Baker."

"Não, ela traiu o Brian e ficou envergonhada, mal saiu de casa durante o verão."

"O quê? Não gente. Eu ouvi dizer que o Brian a despachou e começou a comer a melhor amiga, a Meredith, a ruiva, estás a ver quem é?"

"Vocês não sabem nada. Ela estava a tentar chamar atenção como a está a ter agora. Depois do Jayden morrer ela quis dar numa de viúva negra quando não se importou com ele antes. Odeio quando fazem isso."

"Achas? Não sei, a Rita disse ao James que disse ao Stephan que acabou por contar à Anna e depois falou com a prima que me disse a mim que a viram a entrar numa casa de maluquinhos. Coitada... nota-se porquê..."

Eu não queria envolver ninguém, não queria que esperassem por mim ou que se preocupassem comigo. Estava farta de ser um fardo para as pessoas. Precisava de me sentir livre, de sentir que não tinha o peso do mundo nos meus ombros, precisava de sentir que não estava a fazer alguém a sentir-se mal quando eu própria estava mal. Eu sei que é inevitável sentir-se mal quando alguém com quem te importas está mal, eu sei, mas não queria fazer alguém sentir-se assim. O Brian cortou-se para chamar a minha atenção, eu não queria fazer-lhe isso. Não queria que algo parecido voltasse a acontecer. O meu medo falou mais alto que a minha racionalidade e peço desculpa, mas foi o que achei melhor. Não estava à espera de ter magoado tanto.

As notícias que foram dadas aos meus pais foram dadas pelos enfermeiros que tomavam conta de mim, não era eu quem lhes informava sobre nada. Eu precisava deste tempo para mim e para perceber o que se passava comigo, precisava de cuidar de mim como queria cuidar dos outros. Apesar de tudo, foi uma decisão que não me arrependia. Ter ido para a clínica ajudou-me a ver o mundo de outra maneira, de uma forma menos negativa e mais percetível. Eu não podia deixar que o meu mal prejudicasse alguém. Precisava de me colocar em primeiro lugar, esse devia ser o meu objetivo sempre.

Talvez se eu tivesse dito algo mais, nada disto estaria assim. A carta de nada serviu para nada, do que estava eu à espera? Devia ter dado notícias enquanto podia, devia ter escrito mais. Comunicação é a chave, deveria ter sabido isso antes. Mas... mesmo assim, como é que posso estar errada se não compreendem porque fiz o que fiz? Quero dizer, ele nem sequer me deixa explicar. Eu sei que mereço o desprezo dele, mas podia deixar-me falar, deixar-me explicar. Eu errei, eu sei. Estou a pagar por isso. Ainda assim...

Piorei tudo, arruinei completamente tudo de bom que tinha. Como é que fui capaz de me autossabotar tanto? Eu deveria saber que o que faz o mundo girar é a confiança, devia saber disso antes. Eu confiei e confiaram em mim, confiaram-me as suas inseguranças e as suas vitórias, confiaram-se os seus pensamentos e as suas palavras e eu traí à descarada. Fui embora sem dizer nada de concreto. Eu sei que o fiz para não o fazer esperar porque eu estava um caco autêntico, partida e desmoralizada mas... ele podia ter esperado... só um pouquinho mais. Agora, ali está ele – a rir-se com os amigos, abraçado à Meredith. Poderia ser eu. Poderia.

"Brian, isso é mentira." Continuo em choque ainda que se tenha passado uns bons minutos desde que me deu a ler a notícia. Como é que algo assim pode ir parar ao público? O secundário não parece ser assim tão diferente da vida real – parece ser apenas uma preparação para o que vem depois.

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