Logo as professoras viram que foi um mau negócio colocar Gabriel do meu lado, lá na primeira fila, só não sei porque elas não nos separaram. Deixaram a gente lá, junto e falando muitão, acho que só por causa do Rafa, que passava a interagir conosco e rir das nossas piadas. Depois de o Rafa contar para a mãe dele que eu partia com o Gabi os docinhos que ela mandava, ela passou a mandar dois docinhos em vez de um. Meu pai sempre dizia que dia de doce é sexta e eu só levava doce na sexta, sempre um bombom só, mas a mãe do Rafa mandava docinho para a gente todo dia.

Em Agosto, quando voltamos das férias, a mãe do Rafa falou com os meus pais e me chamou para o aniversário dele. O Gabi também foi convidado e a gente foi. Depois de um dia inteiro num parquinho eletrônico, cheio de coisa que eu gosto, de carrinho de bate-bate, montanha russa, videogame, roda gigante e tudo o mais de legal que tem no mundo, a gente virou amigão mesmo. O Rafa, o Gabi e eu. Até parei de me importar com as minhas ex-amigas que me excluíram do grupo.

No recreio agora andávamos nós três. Os nossos pais se conversavam toda semana e os docinhos pararam de chegar. Cada dia um pai mandava uma coisa para os três. A mãe do Rafa estava muito feliz de ver que o filho tinha amigos e ela queria desculpas para a gente continuar falando com ele. E meus pais também, sempre abastecendo a gente com guloseima, com fruta, com suco de caixinha, o que fosse, cada dia alguém levava alguma coisa em triplo para dividir.

E, quando chegou o meu aniversário, em outubro, eu também os chamei para o aniversário, foi lá em casa. Eu mostrei para eles a impressora 3D que a gente tem e eles quase nem quiseram saber de comer bolo. Ficamos lá no escritório da mãe brincando de imprimir. O Lipe tinha me mandado um e-mail com um projeto de carrinho cheinho de engrenagem. A gente começou a fazer naquele dia, mas levamos um mês todo, eles vindo na minha casa todo dia, para a gente terminar.

Virou costume, no quarto ano, no quinto e no sexto, a gente viver um na casa do outro. Fizemos um monte de projetinhos, até ajudamos o Lipe e a mãe no modelo de aeroplano deles. Eu, o Rafa e o Gabi fizemos a carcaça, o Lipe e a mãe fizeram a parte eletrônica e elétrica. No dia que colocamos o avião para voar, a Mona o abateu no ar e eu chorei muito. A culpa não era da cachorra, tinha um negócio voando no território dela, o Guto tentava explicar, mas eu fiquei com muita raiva.

O Gabi e o Rafa choraram também. Era o nosso avião! E deu muito trabalho de fazer, o projeto que pegamos da internet não encaixava direito e a gente lixou muito cada pecinha até tudo caber certinho. Éramos três tontos trancados no banheiro da minha mãe, cada um chorando a sua parcela de choro, olhando para o outro, todo mundo triste.

Eu lembro que o Gabi foi o primeiro a parar. Quando parou, limpou o rosto, secou o ranho na manga da blusa e fez nós dois pararmos de chorar, também. Me deu um pouco de papel, deu um pouco de papel para o Rafa e sorriu, foi a primeira vez que eu me vi admirando um menino, aliás. "É só a gente consertar", ele disse. Tinha uns olhos tão azuis, tão azuis, mais azuis que os das Botelho. Quando chorava, como naquele banheiro, em volta do azul ficava bem vermelho, junto da pontinha do nariz.

Ele ainda ia descobrir, éramos muito tontos no sexto ano, mas no sétimo ano ele ia perceber: Era o menino mais bonito da sala. Era o único menino que recebia correio elegante na festa junina. Eu recebi um, uma vez, deles. Fizeram troça comigo, não assinaram o nome, só escreveram "admirador secreto". Descobri depois que foram eles, para rir de mim, mas eu não sei porque, guardei. Enquanto eu não sabia quem era o "admirador secreto", eu queria que fosse um deles e, no fundo, fiquei feliz que tenham sido os dois.

Mas não falei nada. Essas coisas não se fala quando tem 12 anos. Você fica pensando qual dos dois vai ser seu marido, quantos filhos vai ter e essas coisas que as meninas pensam, mas eu nunca me decidia. Uma hora eu queria que fosse o Gabi porque o Gabi era muitíssimo bonito, mas quando o Rafa chegava partindo o bolinho de baunilha dele comigo (só porque ele sabia que eu gostava muito de bolinho de baunilha) eu me derretia toda.

Para Sempre TrêsWhere stories live. Discover now