CAPÍTULO 21

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VINTE E UM

          Fim.

          Um final desastroso.

          Uma verdadeira decepção. Algo que nem um cão de rua gostaria de mastigar mesmo após comer lixo, esse é o sabor que ficou em minha boca.

          Algo azedo, porém, amargo; quente, porém, frio; preto, porém, branco; triste, porém, engraçado. Realmente, algo ruim. Entretanto, não é um final, longe disso, um desfecho encerra todos os fatos, um encerramento cumpre seu papel de fechar cada lacuna e então proporcionar a sensação de conclusão para o leitor.

          Isso é um final. Mas isto não é um final.

          É um desfecho temporário. Um gancho solto nas últimas páginas.

          Pode-se dizer que é até um tipo de tortura, e caso usassem esse método para interrogar prisioneiros de guerra, seria um método eficaz, realmente uma arma mortal. Forçar alguém a ler um conto, acompanhá-lo e terminar com o gosto de incompleto é terrível, realmente um ato digno de ódio, algo que nem mesmo um ser de pura maldade em seu coração seria capaz de conceber.

          De fato, um ato maligno, um plano maligno.

          Ravi me atraiu até aqui de volta, tentou matar Koa e, no final, apenas se foi, deixando um pedido pertinente. Não havia sentido, não havia lógica, não havia nada. Apenas me trouxe aqui, fez toda essa bagunça, deixou um pedido estranho e foi embora; alguém normal não faz isso, alguém com um pingo de consciência não faz nada disso.

          É apenas uma desculpa.

          Como se ele tivesse que arrumar um cenário antes de partir.

          Contar-me sobre Evanla, essa garota que eu sequer consigo imaginar um rosto, era o objetivo de Ravi. Portanto, ele me contou sobre essa outra pessoa, que não possui um nome, alguém que ele diz que tentou me fazer mal, e a ela também. É como se fosse uma piada de mau gosto, onde eu não sei de nada e devo entender às pressas, de um modo ou de outro. Isso me irrita.

          Pude retirar o caminhão que entrou na minha sala com a ajuda dos bombeiros — os quais chamei em seguida, pois a vizinhança pareceu não se importar com um veículo entrando na minha sala. A companhia de seguro irá cobrir os estragos feitos por dentro e por fora, onde o caminhão foi confirmado como "um acidente de trabalho" e acabou parando ali.

          E um dia se passou.

          Koa se manteve no quarto de hóspedes se recuperando de seus ferimentos; costelas quebradas, dois tendões rompidos, hemorragia interna e externa. Ele conseguiu manter-se para uma recuperação. Pergunto-me se isso seria possível se ele não fosse uma anomalia, uma esquisitice. Certamente não.

          Koa não disse nada desde que Ravi se foi, isso me faz lembrar quando estávamos em Fonte Nova e em Pérolas. Talvez eu devesse ir falar com ele, tomar a iniciativa outra vez.

          Eu fui até seu quarto, a porta não estava trancada, apenas a deixei encostada quando pedi para ele se recuperar lá dentro. Pude ver pela brecha, ele estava sentado na cama, olhando para a janela; talvez vendo algo no horizonte, talvez observando alguém, ou só esperando o dia virar noite e voltar a dormir.

          Lentamente empurrei a porta e avancei para ver seu estado com menor sutileza. Aproximei-me da cama, peguei a cadeira da minha mesa e me sentei ao lado.

Hábitos Decadentes - Exílio AberranteLeia esta história GRATUITAMENTE!