Profano Rosário

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Eu achava que superstição fosse tolice, até minha amada ser raptada por bruxas. Agora vejo que o ceticismo é uma tolice.

Viajei por quase uma semana em um pântano peçonhento. Serpentes venenosas, insetos quase do meu tamanho e até uma hidra de várias cabeças me atacaram ao longo jornada. E nada disso me preparou para encontrar o covil das bruxas. Pensei que seria uma gruta ou um casebre, mas os boatos eram reais.

O cheiro beirava o intolerável, uma mistura de mofo e enxofre, fazendo meus olhos lacrimejarem e meu estômago revirar em náuseas. A água suja e densa batia no meu joelho e eu já preferia só pensar nas doenças que contraí quando voltasse para casa. Já não havia plantas ao meu redor, pois nada conseguia viver naquelas proximidades. E uma suave neblina esverdeada só me permitiu enxergar quando já estava a poucos metros daquilo que, até aquele momento, eu acreditava ser só superstição.

Os ossos estavam bem conservados. Cada presa tinha a minha altura, pontudas e afiadas, inúmeras. Só a mandíbula já era do tamanho de uma casa. As cavidades das narinas pareciam portas e as dos olhos pareciam enormes janelas. Entre diversos chifres do tamanho de braços humanos, um par era especialmente majestoso, nascendo acima das cavidades oculares, ondulando para trás e subindo como duas enormes lanças de cavalaria. Os boatos eram reais, o covil das bruxas era o crânio de um dragão ancestral.

Engoli em seco, tentando ignorar o gosto pútrido em minha garganta, e avancei.

Não muito longe, um corpo boiava no charco. Os restos de um corpo, na verdade, não sei se havia sido devorado por bestas e vermes ou se apenas deteriorado e desmanchado pela água. Não importava, não era nada além de um alerta a ser ignorado. Minha amada precisava de mim.

A cada passo, a água parecia mais densa e até mais escura, como se o crânio ainda expelisse algum veneno. Alcancei a mandíbula do covil e estanquei um momento no que parecia vagamente uma forma feminina em uma das presas. Senti minha espinha gelar e controlei minha respiração. Era apenas um dente deformado, com curvas e cavidades que se assemelhavam a uma cintura e um busto. Olhei fixamente e repeti para mim mesmo que era apenas impressão minha. Uma presa deformada, só isso.

Escalei uma pequena elevação, passei por entre os dentes e saltei para dentro do covil.

Escuridão. O crânio era tão enorme, que eu não conseguia ver o topo ou o fundo. Apenas o som da vibração e das gotas d'água e a luz fraca entrando pelas cavidades. A água já estava na minha cintura. Quando me dei conta, minha mão já estava em minha espada. Eu não sabia se encontraria primeiro minha amada ou suas raptoras, então precisava estar pronto. Concentrei-me na escuridão, adaptando meus olhos. Era uma emboscada óbvia, eu precisava ter paciência para que as bruxas atacassem, e não apenas entrar no covil e ser pego desprevenido.

Minha única companhia era o som do meu corpo desafiando a água. Meu único instinto era o medo. Minha única certeza era minha missão de resgate.

Avancei até que estava mais próximo da escuridão do que dos feixos de luz. Mais alguns passos, e aquela pouca iluminação seria inútil. Eu me sentia me equilibrando entre a luz e as trevas. Cada vez menos luz e cada vez mais escuridão ao meu redor.

Então um eco. Não, não um eco, um sussurro. Agudo e zombeteiro. Do fundo? Não, não veio do fundo, veio de cima. Olhei e não vi nada. Bruxas sabiam andar pelas paredes? Elas atacariam de cima? Elas estavam perto, mas onde?

Olhei ao redor, acima, olhei para as presas e para a escuridão de novo e vi.

Um rosto.

Apenas o pescoço para fora d'água. Face rosada e limpa, contrariando tudo ao redor. Cabelos lisos e escorridos, exceto por um par de tranças amarradas pelas laterais. Olhos amarelos, cintilantes. Em seu ombro, um filhote de gato branco, aparentemente alheio à situação. Um rosto doce. Meigo. Apavorante.

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