Capítulo 1 - Eu tô bêbada, não é?

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— Lipinho, eu posso perguntar uma coisa? – Na mesa do jantar, sozinhos em casa, o Lipe não era mais o moço de riso fácil e da piada idiota. Os dias escuros chegaram para ele, formado Engenheiro, com méritos, mais rápido que qualquer outro aluno de sua turma, ele queimava seu potencial numa construtora de prédios com terraço gourmet e a mãe não podia ouvir de seu trabalho sem perder a linha.

Não criou seu filho para isso, ela dizia. Não deu tudo o que tinha, não se rasgou, não se violou, não se diminuiu, não se deixou para trás para ter um filho com um diploma de ouro, um gênio dócil, uma postura majestosa, e para sofrer tanto por amor do jeito como sofria ali e como sofreu por muitos anos mesmo depois deste episódio.

Por isso, por ver um tubarão numa lata de sardinha, Manuela sabia que era para ele quem ela tinha que perguntar.

— Sempre. – Ele respondeu, pousando o copo de coca-cola ao lado do prato – O que foi?

— É uma pergunta cretina.

— Tudo bem, – e se preparou – o que você quer saber?

— Quando... – vermelhinha de vergonha, o rosto enterrado entre os ombros, a menina de quinze anos se dividia entre o que esperavam dela e o que ela realmente queria. Gaguejou e sentiu as mãos frias, mas tentou disfarçar perguntando outra vez – Quando foi que você soube que amava a Dê?

Lipinho Lindo, era assim que a Manu pequenininha chamava seu irmãozão. Lipinho não viu o rostinho da irmã ao lembrar da mulher que ele terminou para não sofrer mais e que nunca conseguiu parar de sofrer. Mediu o prato remexido, a toalha da mesa, as cadeiras dos entes queridos ausentes.

— O coração bate diferente.

— É?

— É, sabe, não tem uma hora perfeita em que você entende que tá apaixonado, você vai caindo. A fulana... ou, o fulano no seu caso, vai ficando maior. É um pão de queijo que a filha da puta faz, é um café, e você nem gosta de café, é uma toalha que ela guarda para você, são sempre essas coisas pequenas que te fodem.

Como quando o Rafa chegava pertinho só para mostrar como funcionam os números complexos e, de repente, você não consegue respirar?

— Quer dizer, – ele retomou, se arrumando na cadeira, brincando com a toalha da mesa entre o polegar e o indicador – eu não sei como as outras pessoas são, mas comigo foi assim. Eu percebi que a gente ia se separar por causa da faculdade, que ela não estaria disponível para me ver todo fim de semana que eu fosse lá para Poços, e eu... sei lá, senti que deveria fazer alguma coisa.

— Você se arrepende da escolha que fez?

— Nesse momento? – Essa é que era a pergunta cretina, Manu percebeu. Ver o irmão engolir em seco e cerrar os lábios a fez perceber que sim, cinco anos namorando separado para depois terminar por telefone são o desenho perfeito de uma escolha errada – É engraçado.

— O quê?

— Não foi como se eu tivesse escolha.

— Então você não se arrepende? Mesmo com toda essa merda rolando?

— Não, eu me arrependo muitão. Olha pra mim, Manu. Eu vivo de trabalhar num emprego que eu não gosto, e de cuidar de você que não precisa de cuidado.

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