Um novo amor?

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Entrou no 11° andar da universidade mancando. Havia batido o pé mais cedo, que ainda estava dolorido. Mesmo assim carregava um livro pesado, enorme, chamado ironicamente de A Concisa História da Literatura Brasileira, outro de Drummond, e uma pasta com apostilas. "Parece que vai dar tudo errado hoje", pensou. Mas mesmo assim ela seguia para uma das aulas do mestrado, quando um homem por volta dos 40 anos se aproximou.

- Eu posso te ajudar a carregar esse material?

Ela parou, estranhou e respondeu.

- Não precisa, eu vou para a primeira sala do corredor.

- Para a 1102?

- Isso.

- Eu também. Eu vou dar aula lá, sobre Drummond.

Ôpaaaa. Aquilo estava parecendo cena de novela clichê. Larissa pensou: "Um herói, que nem no filme Paraíso Perdido? Ou um professor-herói? Impossível!" Já fazia um tempo que, convencida por um amigo, ela havia deixado a poesia da vida só para os livros, alguns contos e outros textos que escrevia. No fundo, era uma romântica, mas não estava colocando muito isso na vida real. Teve decepções que a fizeram agir assim. Agora ela era equilibrada: metade centrada; metade aquela que se joga. Metade Nina. Metade Alice. Só que Alice ficava bem guardadinha nos poemas.

Ele fala, cortando o pensamento dela.

- Eu sou Fernando, professor de Poesia Moderna.

"Ou será que era como Fernando, do livro Senhora?" - os pensamentos voltam para a cabeça de Larissa, que responde meio desconcertada.

- Ahh, prazer professor. Meu nome é Larissa.

- Vejo que você gosta de Drummond.

Larissa olha pro livro cheio de marcadores coloridos.

- Sim, é meu poeta preferido.

- Meu também, não à toa dou aula disso.

Impossível de novo. Um homem bonito, maduro, e que curte Drummond. Só pode ser casado ou gay! (Perdoa gente, mas Larissa é desiludida com o amor)

Ele pega os materiais dela e guarda na mochila. Tinha que ter um defeito né. Usava mochila! Mas engraçado que Larissa até que gostava de mochila...

- Está bem guardado. Mas...qual poesia de Drummond você mais gosta?

- Tenho várias preferidas. Gosto por igual.

- Cita uma.

Larissa se empolga.

- Provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços.

Silêncio. Ela estava começando a sentir medo de se apaixonar por aquele homem. Há tanto tempo isso não acontecia, que Larissa não lembrava mais como era. Ele interrompe o pensamento dela.

- Não cantaremos o ódio porque esse não existe, existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas. Cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas, cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte, depois morreremos de medo – declama Fernando, que acrescenta.

- Faltou falar do medo de amar.

Larissa toma um susto. Pelo que ele acrescentou, parecendo ler a mente dela, e por ter declamado. Raro encontrar isso em um homem. Silêncio curioso. Ela não resiste e pergunta.

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