CAPÍTULO 20

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VINTE

          Passados poucos segundos, eu senti que podia me mexer. O susto de um caminhão entrando na minha sala e jogando meu melhor amigo até a cozinha havia no mínimo parado por enquanto.

          — Haha... ha... hahahaha... ele morreu... ahahaha!

           As gargalhadas exuberantes de Ravi ecoavam pela casa, parecia ser o único som em quilômetros. Levantei do piso, me coloquei em frente a Koa de onde estava e olhei seu corpo distante, mas não consegui esbanjar nenhum tipo de emoção concreta, embora fosse uma crueldade da qual não havia como medir.

          Senti meu corpo calmo, minha respiração leve.

          — Eu entendi o que você disse mais cedo — afirmei para Ravi, que demonstrou uma expressão de confusão antes de questionar:

          — Entende o quê, meu bom amigo Erick?

          — Você disse "o resto você já deve ter entendido" quando me contou sobre sua viagem, e somente agora sou capaz de entender que você não foi para a Alemanha.

          Agora eu entendo perfeitamente o que era.

          — Você não liga para seu amigo, Erick? Ele está morrendo.

          — Desculpe, mas se jogar um caminhão nele foi uma tentativa de me fazer ficar triste, você falhou miseravelmente.

          — Hm?! Espere... não sente nada pelo seu querido amigo?

          — Oh, eu sinto, ele é meu amigo, não é? Eu realmente gosto de sua companhia e acredito que seja a única pessoa que eu posso realmente chamar de "amigo". Eu sei disso agora, mas...

          — Mas...

          — Mas eu tenho o desgosto de saber que a causa disso é provocada por outro amigo meu. Portanto, eu não sei exatamente o que sentir.

          Amigo? Do que estou falando? Eu disse que Koa é alguém que eu posso realmente chamar de amigo, isso, por si só, já não é uma prova de que minha visão sobre Ravi mudou? Então, por que eu continuo a não sentir a fúria contra ele que eu deveria?

          — V-Você não... — disse Ravi.

          — Talvez saber que um ou dois dias irão fazer Koa voltar aos eixos me deixe menos irritado..., mas... é verdade também que eu não poderia esbanjar um sentimento de ódio aqui.

          É a verdade.

          Isso não é fruto do que eu passei em março, é apenas... uma revelação.

          Todas as vezes que o sobrenatural transformou meu corpo me fizeram perceber a banalidade da preocupação para mim ou qualquer um, e isso é um mal hábito do qual Ivhan me advertiu ficar afastado. Então é claro dizer que, assim como o ápice da forma física transborda em mim naquele estado, o ápice da maturidade também deve eclodir em mesma forma — assim, meus pensamentos imaturos, meus ideais imaturos, tudo é perdido? São coisas que eu penso. Tudo isso desaparece ou simplesmente se reduz quando eu mudo fisicamente?

          Levantei-me e andei até Ravi, ficando pelo menos a dois passos dele.

          Pude manter a mesma calma de quando estávamos jogando, o encarei e fiz a pergunta que me deixou curioso desde nossa conversa na vinda até aqui, desde que ele falou sobre ter ido à Alemanha.

Hábitos Decadentes - Exílio AberranteLeia esta história GRATUITAMENTE!