L2|| XIII. Raramente O Universo É Tão Preguiçoso

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CINCO ANOS ATRÁS (continuação)

Por causa da estranha noite que eu tive até agora, o plano seria ignorar quem decidiu me pertubar. 

Mas aí, eu o ouvi dizer meu nome e de onde venho. 

É raro ouví-los assim por essas bandas do multi-universo, e refém de minha curiosidade me dou ao trabalho de virar para o dono da voz que pingou escárnio.

HaA surpresa. 

Os olhos azuis. O terno aberto. Os cabelos mais negros que a noite que me cobre. É o homem com o qual troquei olhares longos demais dentro da Casa Lumiere. Agora se encontra aqui ao lado do carro no qual me sento. Mãos nos bolsos de sua calça, e um rosto de esculpidos traços fortes que maculavam-se com o sorriso dictério que lança em minha direção. 

Com a garrafa na mão me levanto, ficando de pé no capô de metal que nem se desnivela com o fino salto agulha que pressiono sobre ele. Olho para quem me interrompe e vejo um daqueles seres bonitos, revestidos de regalias humanas. O cara da área VIP, impossível de esquecer. 

Como também não posso me esquecer que algo nele me incomoda... 

... Me faz querer incomodá-lo também. 

Decido começar um pequeno desfile sobre o carro que clamara ser seu. Ando pelo capô, teto e traseira, volto parando no teto e dou um giro completo. 

— Dá para o gasto. —  Sorrio e posso ver que o irritei um pouquinho com isso. Conheço o suficiente do jeito humano para saber o quão apegados a suas possessões eles são. Eu sei que não devo fazer isso, mas ás vezes acho que faço coisas do tipo por esse exato motivo. 

Ele bate palmas lentamente, debochado.

— Se o desfile já acabou, gostaria que devolvesse o que roubou de mim.— diz ele. 

— O que roubei de você exatamente? — Curiosa, sento-me na beirada do teto do carro de frente para ele e cruzo as pernas. 

— Isso na sua mão me pertence. — Ele se aproxima, seu rosto fica proximo a meus joelhos. — Essa garrafa custa quase quinze mil reais. — Agora cruza seus braços. — E honestamente, nem se custasse cinquenta centavos. Não é sua e estava a caminho de minha mesa quando você resolveu usar de magia barata em minha funcionária para roubá-la. 

Ele sabe que usei de magia. Como exatamente, eu não sei, pois humanos desconhecem forças que não condizem com as que agem naturalmente em seu mundo. A informação revelada me sobe um calor no corpo mas não desfaço minha pose, ajo como se não fizesse diferença se ele sabe ou não. 

Minha única resposta é beber mais da garrafa que ele quer de volta, fazendo isso enquanto olho bem dentro dos olhos azuis dele. Meu mundo dá algumas voltas mais rápidas que de costume com o efeito do líquido viscoso e gelado.

Estou tonta, mas atenta. Sei lá, depois de tudo que já me aconteceu hoje, não dispensaria um último joguinho para finalizar a noite.  

— Uma vergonha, não acha? Filha de um deus em um mundo, trombadinha em outro. Patético, eu diria. —  Ele coça sua nuca com falsa solicitude. — Meu sócio te expulsou da Lamartine com motivo. 

Apesar do resto de suas palavras me incomodarem, se eu soubesse o que trombadinha significa sinto que eu me ofenderia ainda mais.

Mas só o que faço é usar de minha velocidade para agarrá-lo pelo pescoço e grudá-lo contra o pilar sujo de concreto atrás dele e arrancar algumas respostas do novo engraçadinho xereta que resolvera atrapalhar minha noite. 

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