Capítulo 27 - Antídoto | Parte 02

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Os medicamentos dos fantasmas deveriam ser milagrosos, pois Giovanna, rodeada por fantasmas translúcidos, logo remexeu no chão. Isso era um alívio, ao menos eu precisaria me preocupar de verdade apenas com Benjamin. An surgiu em minha frente de novo, sem avisos e tocou meus ombros ainda machucados, senti como se um vento frio estivesse sobre eles.

- Me desculpe, eu sinto muito por sua dor - ela disse - Mesmo assim, prometo que faremos o possível e o impossível que estiver ao nosso alcance para salvá-los. Você deveria esperar lá fora com seus amigos, logo cuidaremos de vocês.

Eu não tinha forças para questionar, minha energia havia sumido de vez, ainda assim caminhei para fora sem responder, apenas no modo automático. Sentamos no vagão vizinho, um dos poucos que estavam intactos. Alguns fantasmas atravessaram o lugar murmurando e reclamando algo sobre "uma noite de sono perdida". Eu não sabia se fantasmas realmente dormiam ou se aquilo era apenas força do hábito, para que ficassem mais próximos aos humanos - bem ranzinzas, nesse caso. O importante era que uma parte minha concordava com eles, eu ia desabar se não tivesse um pouco de descanso.

Minutos depois, um fantasma de uma mulher fez um curativo nos meus ombros e limpou os outros ferimentos que eu tinha, mas eu mal senti o que estava acontecendo. Minha preocupação, frustração, desespero, impotência... tudo estava se misturando dentro de mim. As lágrimas haviam secado. Christopher segurou minha mão, pela primeira vez percebi o quanto parecia compartilhar das mesmas sensações. Ele não demonstrava fraqueza, mas naquela hora havia assumido uma versão desconhecida que eu não queria que continuasse.

Toda vez que An aparecia para ver como estávamos ou pegar algo na cabine de Buu - que até agora estava desaparecido - era aquela expectativa de ouvir boas notícias e o medo de saber o pior. Até que ela veio até nós com uma expressão confusa.

- O amigo de vocês está resistindo a muito tempo, eu não compreendo. - Aquilo acendeu a chama de esperança em meu coração, o que não era nada legal, pois eu sentia que logo teria que apagá-la.

- Isso é bom?

- Seria, se tivéssemos um elixir curador. Sem ele, o veneno continuará em seu corpo.

- E onde podemos encontrar um? - Christopher já estava de pé.

- Eu sinto muito, só poderíamos encontrar com alguém poderoso que detém algo relacionado a cura. Não é como se fosse um objeto que podemos comprar no mercado. - ela suspirou - Essa pessoa poderia fazer o elixir e talvez, na melhor das hipóteses, funcionaria.

De repente o corredor ficou mais claro, o Sol já entrava pela janela.

- O ponto de saída de vocês está próximo, precisarão ir. Infelizmente a estação seguinte não abriga vivos e é perigoso se tentarmos burlar as regras. Buu nunca deixaria colocá-los em perigo dessa forma, então vocês devem se preparar para partir.

- Mas como? Nós temos dois feridos no grupo! - Christopher estava indignado.

- Apenas um. - Giovanna apareceu na entrada e caminhou até nós. Não havia indícios da luta anterior, mas sua expressão era o retrato completo de dor e angústia. Se teve um momento em que realmente confirmei os sentimentos da menina por Benjamin foi ali, vendo seu olhar perdido. Reflexo da incapacidade de agir para salvá-lo.

O trem deu uma guinada estranha e de repente reduziu a velocidade.

- Vocês precisam se preparar. Antes, devem escolher o que farão com o rapaz. Ele ainda está vivo, mas inconsciente e muito fraco. Se morrer aqui dentro, talvez consiga se juntar a nós e ficará no nosso trem para sempre. Eu posso ajudá-lo.

O Mistério de Allíshya - Perdida | Livro 03Leia esta história GRATUITAMENTE!