CAPÍTULO 17

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DEZESSETE

          Levou mais ou menos vinte minutos para chegar até algum comércio no bairro. Isso, em uma linguagem mais direta, seria a pequena intersecção entre quatro esquinas formando um xis.

          Neste ponto, minha meta era a de encontrar pudim; um simples alimento, uma sobremesa comum. Porém, não qualquer pudim, um que seja totalmente, não, mais que totalmente caseiro. Ele deve esbanjar sua origem de fabricação natural à plena vista, ele deve ser algo que bastaria olhar para saber que uma pessoa com extremo amor e cuidado trabalhou incansavelmente para produzi-lo.

          Em outras palavras, eu deveria encontrar um milagre.

          — Tem certeza de que isso é 100% natural, senhora? — perguntei à atendente, que logo gaguejou em seu "não", e eu deixei o produto na prateleira.

          Esse foi o primeiro lugar que parei para ver se tinha algo que atendesse aos requisitos e, após minha decepção, me desloquei para a calçada em busca de um outro lugar para tentar a sorte.

* * *

          "Não há".

          "Esqueça".

          "Isso é apenas um mito".

          "Nem sei do que tá falando".

          "Desde quando algo assim existe?"

          Foram todas as respostas que encontrei em minhas outras opções pelo quarteirão — as quais de nada me serviram —, mas, mesmo assim, não podia desistir; caso fizesse isso, não só perderia em uma aposta com Koa, como também "perderia" em uma aposta com Koa. Não foi ênfase, a segunda linha é ainda pior. Não posso permitir que aquele homem-gato tenha o deleite de me ver limpando a casa desprovido de minhas vestimentas... é algo que não posso aceitar. É como dar uma cópia da gravação da tortura militar a um psicopata.

          Não me lembrava, mas Bom Jardim é um lugar tão calmo quanto Pérolas, dotada de um clima e pessoas agradáveis ao ponto de preocupações ou acidentes não serem tão normais quanto em Fonte Nova ou Iminente — este último é onde mais ouço acidentes ocorrendo.

          Por mais que isso soe rude, é algo que os demais locais deveriam priorizar o máximo que conseguirem, embora tudo indicasse o contrário. Para mim, que sou uma pessoa de natureza calma, talvez devido ao fato de ter sido criado em um lugar de mesma estrutura, estar repleto de agitação é, no mínimo, tenso.

          Aliás, vendo que minha cidade está calma como sempre, percebo que algo que me perturbava simplesmente não ocorreu. O mundo ainda está bem. Parece radical, mas isso se deve ao fato da cabeça de um certo imortal ter desaparecido de minha vista em Pérolas e nunca mais ter sabido qualquer notícia ou indício de seu paradeiro.

          Será que me preocupei à toa?

          Evitando o pensamento de algo que eu não precisava me questionar no momento, dei espaço para adentrar outra loja, o que me fez ver o quanto havia me afastado de casa à procura dessa arca, pois era uma que eu nunca havia visto — ou pelo menos não no tempo em que vivi aqui, o que foi praticamente uma vida inteira.

          O lugar era pequeno, a placa de boas-vindas realmente era atraente e logo adentrei as prateleiras do estabelecimento caçando o milagre. Curioso como as lojas desse tipo possuem de tudo um pouco, consigo ver desde revistas, gibis e mangás até um carrinho de mão para obras. É, acima de tudo, um lugar para se encontrar o que jamais pensou achar. Isso é parte da minha teoria de que estes lugares são feitos para você achar o que não quer realmente, já que, a partir do momento em que acho absorventes ao lado de produtos de limpeza para móveis, certamente é esse o tipo deste lugar.

Hábitos Decadentes - Exílio AberranteLeia esta história GRATUITAMENTE!