L2|| XXIX. Ruas de Cultura e Tradição

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Alguns dias se passaram desde que vi minhas irmãs

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Alguns dias se passaram desde que vi minhas irmãs. 

Até agora me pergunto o que eu esperei quanto a elas descobrirem meu pequeno segredinho. Eu nunca contei a nenhuma delas sobre esse outro lado. Eu nunca contei a ninguém. Reservei o que julguei ser minhas estranhices para mim mesma. Um acerto, um defeito. Só meu, não precisei expor ele a outros. 

Eu preciso encontrar Alexis e me explicar para ela. Sei que ela vai entender, ela sempre me entendeu! Mas antes de encontrar ela, eu preciso encontrar a coragem de falar com ela. Não que eu esteja com medo mas... não sou do tipo que se abre fácil assim quanto a isso. 

Se fosse não estaria nessa situação;

Ando numa rua que exibe diferentes marcas e tipos de carros humanos em multiplas cores, estacionados paralelos à sua curta calçada de pisos quebrados. O bairro do Bixiga é tão característico, uma das peças que formam o grande quebra-cabeça geográfico que é São Paulo.

Essa cidade é um mundo em si.  

Se eu entendesse de arquitetura humana provavelmente poderia apontar em seu tempo-espaço quando este lugar começou a se formar e por quem. Mas como não posso, apenas relembro os ecos das palavras de uma orgulhosa moradora local, que com um sotaque perceptivelmente forte e único bradava para mim: "O Bixiga é cultura italiana pura, menina!".

Sei lá eu o que isso significa. 

A moradora local a qual me refiro é ninguém menos que Dona Martinha. Uma humana peculiar a quem conheci em uma das primeiras vezes que pisei no mundo humano. Ela nunca se importou com quem sou, sério. Nem com minhas asas, minha falta de entendimento daqui, meus poderes ou coisas do tipo. "Tenho mais o que fazer, meina. Se eu for contar por ai tudo o que é bicho de outro mundo que sei que vive aqui..." é o que ela dizia quando eu a pedia para não contar por aí sobre minha presença em seu mundo. 

E realmente, ela tem muito o que fazer: Dona Martinha é dona de alguns negócios que se estendem por este bairro, e mora em um dos prédios/estabelecimentos mais peculiares que já vi nesse mundo. 

Um prédio cinza e rebocado de cinco pisos diferentes, onde eu só posso ir em três deles, os que não são subsolo. "Para o seu próprio bem, fadinha." ela dizia. Eu não me importo muito com isso, nunca tentei passar dos limites impostos por ela e acho que é por isso que ela gosta tanto de mim.

A senhora baixinha, parruda e de idade que tenta não demonstrar, gosta de usar constantes estampas animais como leopardo, zebra e onça dos pés a cabeça; longuíssimas unhas rosa choque nos dedos e em seu rosto, maquiagem de cores fortes. Nasceu na Itália, e me contou uma vez que chegou aqui num barco enquanto ainda criança. "Uma porra duma guerra  mundial trouxe minha avó para essa terra de ninguém e agora ela é minha. Minha vila!"  batia no peito e tragava seu cigarro, deixando aquele círculo de batom vermelho ao redor da parte branca dele.

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