L2 || XXVIII. Abutres

300 31 414

Calando a briguinha de vozes emocionais e ardidamente altas de minhas irmãs, uma massa negra emerge no céu e toma toda minha atenção

Ops! Esta imagem não segue as nossas directrizes de conteúdo. Para continuares a publicar, por favor, remova-a ou carrega uma imagem diferente.

Calando a briguinha de vozes emocionais e ardidamente altas de minhas irmãs, uma massa negra emerge no céu e toma toda minha atenção. Um cheiro estranho toma o ar que nos rodeia, se fazendo pesar contra minha pele num calor pulsante de poluição e escuridão. 

Eu aprendo muito em pouco tempo. Eu tento processar tudo o que ando descobrindo o mais rápido que posso. Confesso que até para minhas capacidades, acho que meu ritmo para fazê-lo as vezes é irritantemente devagar demais. 

Como aprender de uma só vez que se é um fada importante para todo um mundo, que se é capaz de lutar com uma enorme habilidade recém-descoberta, ou que se tem duas irmãs que preferem derrubar um mundo todo ao invés de se resolverem?

Estou ruminando e ainda digerindo isso tudo. 

Mas isso que tapa o meu céu... não é preciso me explicar do que se trata. 

Todos os meus instintos me avisam: este é meu predador. 

Correção. Nossos predadores. 

Tão imediatamente prontos para nos atacar quanto eu estou para matá-los. 

Um instinto protetor me sobrevem e olho de soslaio para minhas irmãs. Sem saber o quão bem treinadas estão para se defender, cerro meus punhos e entro no meio das duas que se levantam de sua peleja no chão enquanto encaram o céu. 

Cerrando meus dentes, sinto começar a ferver em mim o inebriante calor de uma batalha onde sei que meu oponente vai me oferecer um estimulante embate. Eu não sabia que precisava disso, mas depois de ver essas duas quase se acabarem no chão e não poder fazer nada, eu preciso descontar toda minha raiva em algo. 

Encaro o céu humano novamente e vejo que tem mais de um. Eu os assisto bater suas enormes asas de penachos escuros, seus imensos e inumeros chifres protuberantes contra a luz da lua. Não posso deixar de admitir que há alguma imponência maldita no belo vôo que os fazem circular algumas vezes no céu, uivando famintos o fato de que encontraram exatamente o que queriam.

Três fadas despreparadas num mundo onde magia não poderá ajudá-las.

Eu sinto seus viciosos ódios se refletirem em mim como também  sinto o meu próprio borbulhar daqui ao lembrar que um destes caçou uma inocente e desavisada Cali alguns dias atrás, enquanto eu estava com Dimitri no cemitério de Paranapiacaba. 

— Kolls nos encontraram! — Mabel anuncia o óbvio. — Vê, irmã? Exatamente como eu disse, eles nos encontraram por cau...

— Cale-se. — Minha ordem é contundente e eu a dou sem olhar para quem a direcionei. Eu não sei o que me toma para falar assim com a minha irmã, mas o momento é de foco e não de conversa. Ela devia saber disso, não importa quanto tempo passou num caixão. — Tome posição ou retire-se. 

— Mas é que... — Ela tenta de novo. 

— Agora não é a hora. — Olho Mabelai nos olhos simulando algum tipo de ternura. Tudo o que não preciso é de sentimentalismo em meio a batalha mas, até que todos os nossos eixos se ajustem novamente como imagino que costumavam ser, abro uma excessão.

ADARISOnde as histórias ganham vida. Descobre agora