Capítulo 1 - Nada agradável

177 42 346
                                                  

-Mackenzie?

Escuto meu nome, me virando no meio do corredor. Isaac também se vira por estar ao meu lado e nós dois nos deparamos com uma garota. Não que eu não fosse popular, meu nome era bastante dito, mas aquilo já era demais até para mim. A morena sorridente e com olhos delineados vem na minha direção e me abraça com total intimidade, se afastando só um pouco para estender a mão e sorrir de um jeito que a fazia fechar os olhos ao fazer.

-Sou Valorie. E esse é meu irmão Joshua. Você é nossa instrutora, certo?

Ah. Algo que eu tinha esquecido quando me candidatei. Porque quem não aceitaria ganhar pontos sem fazer nada? E caso um aluno chegasse no meio do ano letivo, qual a chance de cair para você?

Ajeito minha saia discretamente e aperto a mão dela com um sorriso mais contido. O irmão que eu não tinha visto até agora era tão bonito quanto. Joshua tinha olhos azuis como Valorie, moreno e forte o suficiente para a manga da camisa se apertar nos seus braços. Acenei pra ele e sorri, mas apenas recebi um cumprimento de cabeça sério e fui ignorada pelo seu próprio mundo particular dentro dos fones de ouvido. Suspiro voltando a olhar para Valorie que discutia animada com Isaac sobre cortes de cabelo.

-Valorie. Onde mora?

Não quis me sentir tão invasiva como agora, mas por eles terem chegado no final das aulas... Era tanto para se explicar! Ou eu adiantava isso hoje ou demoraria um ano. Como sempre, tive que avisar à Cora onde ia, ela odiava que eu fosse na casa de alguém, por ser uma cidade praiana muitos programas acabavam envolvidos em água e eu devia manter a descrição. Como se fingir não saber nadar fosse algo discreto por ali.

-Perto de você, está na ficha!

A menina me tira dos meus devaneios com uma risada e logo coloca sua mão no meu ombro, a qual eu olho devagar e tentando entender porque essa mania de toque que eu tanto odiava. Ela entrega os papéis da sua mão que logo analiso com cuidado.

-Posso ir lá hoje?

-Claro, sem problema algum!

-E pra você?

Me viro ao irmão dela esperando ouvir uma resposta. Eu estava ficando apreensiva, será que ele era assim com todo mundo? Mesmo que não fosse da minha conta. Sem julgar, certo?

-Por mim tanto faz.

Escuto sua voz grossa e logo o vejo colocar a mão no bolso do moletom. Ele me encara e por alguns segundos fico perdida, sem saber o que fazer. Parecia algum tipo de onda invadindo meu cérebro e o impedindo de pensar em qualquer coisa que não fosse o Bob Esponja, ou sei la. Eu me perdi. Abri a boca pra responder mas nenhum som saía e quando pensei que ficaria assim para sempre, Isaac segura meu braço e me tira desse transe estranho.

Depois disso, apenas acenei e fui direto para as últimas aulas do dia, o que não escapei da dupla penetrante (desculpe o trocadilho), eles estavam em todas as minhas aulas. Isaac e eu trocamos bilhetinhos e em um dos desenhos dele, me fez hipnotizada na frente de uma bola de cristal. Amassei e atirei o papel nele, rindo, mas a mesma bolinha caiu ao chão e foi correndo... Parar aos pés de Valorie.

Deuses, que ela não veja, que ela não veja!

Ela olha para baixo e vê o papel que a gente encarava como se por telepatia fosse voltar até nossas mãos. Em uma risadinha, pegou e atirou de volta sem ao menos abrir, voltando a cochichar algo no ouvido do irmão antes de morder a caneta e prestar atenção na aula.

-Eles são estranhos.

-Só caso não tenha notado, a gente também é.

-Que isso, Izz. Fale por você.

-A garota hipnotizada e com aversão à água. Sua irmã já te convenceu a tomar banho hoje?

-Ha ha, engraçadinho. Eu tomo banho todo dia e meu perfume é melhor que o seu ainda.

-Minha vó que me deu. Disse que atrai conquistas e paz pro espírito.

-Sua avó é estranha.

-Vó Adelaide sempre foi estranha. Mas nunca hipnotizada.

Esse era o tipo de conversa a se ter com seu melhor amigo, algo que acabava em risadas e - finalmente - o sinal tocando. Nos despedimos no portão e assim que me vejo sozinha, peguei minha bicicleta e fui direto pra casa. Não queria encontrar aqueles dois, seja lá onde eles moram, mas sabia que quanto mais adiasse seria pior. Fui pensando o caminho todo, não seria uma tarefa difícil. O funcionamento da escola, transferência, senha do laboratório de informática e rosquinhas grátis toda vez que íamos ao anfiteatro.

Como eu estava distraída, abri o portão de casa e deixei a bicicleta no gramado, ainda falando sozinha ao entrar pela sala principal

Ops! Esta imagem não segue as nossas directrizes de conteúdo. Para continuares a publicar, por favor, remova-a ou carrega uma imagem diferente.

Como eu estava distraída, abri o portão de casa e deixei a bicicleta no gramado, ainda falando sozinha ao entrar pela sala principal.

Caso se pergunte, sim, é um hábito. Sempre me concentrei demais e isso levava à falar muitas vezes sozinha, algo que deveria ser perigoso pois um dia eu estava pensando "e se minha cauda descascar quando envelhecer? Tenho que me preocupar com isso? Será que jogo Cora dentro de um aquário e observo a dela?" e falaria isso bem alto na sala de espera do dentista, caso Isaac - meu herói - não tivesse me cutucado. E ele não sabe de quantas vezes já me salvou de ficar de castigo pela minha irmã sereia.

Dessa vez, corri escada acima gritando um oi bem depressa e indo pro banho. Sem demora, lá estava eu lavando, penteando e escovando meus cabelos. Por serem enormes, vivia com eles trançados, um costume de todos os próximos a mim. Me arrumei com meus coturnos favoritos e peguei um casaco antes de tornar a correr para a porta da frente... Onde Cora estava me esperando de braços cruzados.

-O que deu em você?

-Tive uma emergência enorme!

-Que seria?

Ela pergunta acenando e voltando a cozinha, me fazendo sentir na obrigação de ir também e logo suspirando por nervoso. Me sento no balcão a vendo tentar montar uns cupcakes desastrosos, o que me faz rir e seu olhar crítico suavizar.

-Alunos novos. Sou orientadora. Me tira dessa, Cori...

-Sabe que eu tiraria você de um anzol se pudesse, peixinha

-Piadas de aquário. Dessa vez eu peguei hein.

Ela passa ao meu lado bagunçando meu cabelo e ri, deixando um bolinho com cobertura escorrendo na minha frente. Com o polegar pego um pouco e coloco na boca.

-Então... posso ir?

-Não chegue muito tarde. E compre aquelas pizzas de atum.

-Comer peixe, isso não devia ser proibido?

-Está vendo Ariel de novo? Kenzie, nós sempre comemos peixe. O que achou que comeríamos no fundo do mar?

-Seja uma sereia vegana, coma algas! Te amo, maninha.

E depois de um beijo e um abraço caloroso mas apressado, volto a correr para a porta da frente e fico surpresa ao esbarrar em mais uma pessoa. Suspiro já irritada, a olhando nos olhos.

-Sério, você e o resto do mundo poderiam por favor sair da droga do meu caminh... você?

Meus olhos se arregalam e quase sinto meu coração parar. Onde nos tocamos, minha pele formigava. Cubro meus braços com a mão em um abraço contido e olho pro chão, me desviando de sua presença penetrante e sussurro quase sem eu mesma me ouvir.

-O que faz aqui?

FaíscasOnde as histórias ganham vida. Descobre agora