CAPÍTULO 16

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DEZESSEIS

          Minha casa é como a casa de todo mundo: comum, nada muito exuberante ou chamativa, uma simples residência composta por quartos, banheiros, cozinha, sala, sótão, porão, jardim, varanda e entrada. Em todo o contexto de comum, minha casa é apenas mais uma na lista da simplicidade.

          — Acha que mudou muito nestes meses que estivemos fora? — perguntou Koa, enquanto estávamos parados na frente daquela que é minha casa.

          Hm... é verdade.

          Por um segundo, pensei que Koa notaria a fria ausência de um certo ser imortal reduzido a uma cabeça em uma caixa de gelo, mas pelo visto não.

          Entretanto, eu não havia percebido até estarmos em frente a ela, mas ela, minha casa, parecia diferente de algum modo, o qual só conseguiria explicar com minha ausência nestes tempos. No geral, quando viajamos ou nos afastamos de nosso lar por longos períodos, acabamos nos esquecendo de como ele era, e, quando voltamos, somos capazes de perceber qualquer estranheza, por mais mínima que seja.

          Para alguns, voltar ao lugar de origem remete à nostalgia, e isso ocasionalmente leva a lembranças da infância naquele recinto. Isso é totalmente comum. Para mim, acontece da mesma forma, e isso me incomoda.

          Sem perder tempo, abri o portão e adentrei o pequeno caminho que não dava mais que meros cinco metros até a porta de entrada. As flores ao redor estavam meio secas, e a grama, um pouco acima da média; era possível ver que as paredes se encontravam um pouco sujas, cobertas com algum musgo nos cantos, isso também era esperado.

          Após destrancar a porta, empurrei-a gentilmente e me alegrei de não esbanjar nenhum ruído que demonstrasse a velharia na qual poderia haver se tornado.

          Isso é bom.

          Apertei o interruptor das luzes, mas elas não ligaram, isso era algo que eu esperava, não pago as contas da casa há um mês, a companhia de luz deve ter feito seu trabalho e cortado a energia.

          — Koa... pode levar as mochilas até a sala? Coloca elas lá e me encontre na cozinha.

          — Hm, tudo bem.

          A cozinha não era meu destino, eu pretendia ir a outro lugar, mas queria ir sozinho por enquanto. O motivo é bobo, eu apenas quero ter essa impressão para mim mesmo e ninguém mais, o que soa egoísta até, mas é minha casa, afinal.

          Meu quarto ainda se encontrava da mesma forma, vazio, meio desarrumado, mas ali, igual a como deixei. Pelo visto, nada havia mudado, e isso me deixou contente. Quando desci as escadas e fui à cozinha, Koa já estava lá, se encontrava na geladeira.

          — Isso também? Que droga, eu gostava disso.

          — O que você tá fazendo? — perguntei, olhando de canto.

          — Hm? Pensei que algumas coisas da geladeira pudessem estar estragadas, então vim conferir e tentar não me sentir triste.

          — E então? Quanto vamos ter que jogar fora?

          — Pelo menos... tudo.

          — Tudo?!

          — Não grite, imbecil.

          — Ok, tudo bem, mas... tudo? Tem certeza? Não sobrou nem mesmo os refrigerantes? Esse tipo de coisa não é feito pra aguentar mesmo que a energia vá embora por longos períodos?

Hábitos Decadentes - Exílio AberranteOnde as histórias ganham vida. Descobre agora