CAPÍTULO 14

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QUATORZE

          Dia seguinte ao festival.

          Agora estamos na segunda semana do mês de maio e com certeza não poderia ser uma data mais significativa, pois em breve é dia das mães. Eu citar essa data em específico não quer dizer muita coisa — não entenda mal, eu não odeio esse dia, apenas quero ressaltar que não estou dizendo como se fosse uma data da qual eu não viveria se não lembrasse. Entretanto, gosto de me situar com uma data tão específica como essa.

          Nessa manhã, eu estava no restaurante, preparando algo para o felino de pelo branco que esgueirava pelos arredores. Os ferimentos de meu amigo Koa estavam se curando conforme o tempo passava e eu tratava deles, ainda que ele permanecesse na forma de um gato de pelugem pálida. Diferente do ocorrido com o vampiro, onde ele possuía um ferimento coberto, e que somente com a ajuda de Igor eu pude dar cabo, ele não estava nesse estado agora. Seu braço estava quebrado, mas era um osso, e sendo um ser sobrenatural, Koa se curava de um modo anormal, pois a dor é algo natural.

          Para não assustar o gerente com a ausência de seu funcionário favorito, eu disse que ele havia se machucado à noite movendo algumas panelas e teve que ficar de cama após uma revisão do médico. Claro, tudo era mentira. O gerente acreditou e seguimos adiante — quase sinto por isso, mas não posso dizer o que realmente houve ou seriamos jogados em um sanatório.

          Principalmente porque seria um saco dizer como uma linda moça me sequestrou, atraiu seu magricelo irmão para matá-lo e se transformou em um monstro grotesco que me transformou em purê enquanto me atirava em outra pessoa — viu? Até falando em minha mente isso soa ridículo.

          Falando mais sobre ontem, logo após tudo se resolver, ainda que daquele jeito, fui tirar Koa dali e aconteceu de minha aparência retornar à normalidade quando o perigo se tornou inexistente. Ainda assim, Koa possuía ferimentos dos quais levaria um tempo e outro modo para serem resolvidos se comparados a mim.

           As luzes do festival continuaram por mais uma hora enquanto levava Koa em meu ombro junto de Ivhan para o restaurante; no caminho, ele não disse uma palavra, e eu permaneci mudo até chegarmos. Na parte de fora, não muito depois de percorrer uma quadra, notei que não havia uma pessoa sequer nos arredores, nem luzes acesas ou qualquer outra coisa que indicasse que seres vivos estivessem em seus lares, o que me fez perceber que ninguém ligaria para a polícia pelos ruídos provocados no que depois soube ser um velho condomínio. Isso me acalmou.

          Pelo visto, Ivhan havia retornado à sua real forma, sua aparência legítima, um corpo magro, mas não esquelético, um rosto indiferente, mas não caricato. Não era algo simbólico, literalmente Gaizess havia roubado seu corpo.

          Após isso, Ivhan foi embora, desapareceu, sumiu. Deixou o restaurante antes que eu deixasse Koa com algum curativo — falando assim, parece que ele usou alguma mágica e desapareceu no nada igual a Igor. Isso me deixou algumas perguntas, não muitas, só pequenas dúvidas que pensei poder ter respostas.

          Mudando de assunto.

          Quando passei para a cozinha e fui até a geladeira, não havia nada demais, todas as cadeiras ainda em cima das mesas, portas fechadas, o de sempre; porém, quando fechei a geladeira, eu ouvi aquela pergunta:

          — Olá, o especial do dia tem carne?

          Darei um intervalo de três segundos para que adivinhem quem é.

Hábitos Decadentes - Exílio AberranteOnde as histórias ganham vida. Descobre agora