31. Maçã mordida

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Podia-se pensar que, se tivesse fechado a porta, seu futuro seria outro, mas a verdade era que esse não era um fator relevante para o destino que a aguardava.

O carro tinha acabado de deixar a cidade. Low não disse mais nada significativo e Mori queria surtar por isso. Ela não podia obrigá-lo a dizer algo... ou podia? Será que ele estava testando-a? Parecia improvável... estava enrolando-a, isso sim. Com o objetivo de se livrar dela? Bem possível. Contudo, conhecendo Low, sabia que ele estaria de extremo mau humor se a considerasse um estorvo, em vez de aparentar que uma batalha interna ocorria em seu interior para impedir a expansão de um meio sorriso — o que era estranho para alguém que tinha a habilidade de manter a neutralidade mesmo em situações absurdas. Deveria tê-lo condenado a voltar andando sozinho do cemitério. Aquele sorrisinho arrogante era irritante.

— E se o doutor Ray ligar para o hospital? — ela indagou, tanto por preocupação quanto para tentar apagar aquele sorriso.

— Michelle seguirá minhas instruções e não dirá nada, enquanto a médica dificilmente irá contrariar meu desejo de não divulgar informações sobre o meu tio.

— Michelle? — Mori podia supor quem era essa pessoa.

— A atendente.

— Sabe o nome da atendente, mas não o da médica? — Não que isso fosse um problema, entretanto, conhecendo as duas, na opinião de Mori, quem merecia mais ter seu nome lembrado era a médica.

— Você sabe? — ele devolveu uma expressão desafiadora.

— Dra. Érica.

— Obrigado. Agora sei quem não chamar quando estiver morrendo. — Usou um tom sarcástico e virou a cabeça para focar na paisagem composta por grama, árvores, asfalto, automóveis e céu. — Não gosto de médicos. Eles cultuam o code como algo sagrado e todo o conhecimento anatômico deles é teórico. São incapazes de estancar um sangramento simples sem o auxílio do code, ao contrário dos biólogos. Aqueles que trabalham com animais não podem recorrer a essa tecnologia, portanto utilizam os métodos antigos da medicina.

Era uma resposta informativa e evasiva ao mesmo tempo. Low estava tentando induzi-la a mudar de assunto? Antes que pudesse questioná-lo, ele continuou:

— Mesmo que Raymond descubra qualquer coisa, não mudará os fatos de que meu perfil está como falecido e o localizador está indicando um cemitério. Some isso ao meu histórico de tentativas de suicídio e à última vez em que falei com ele, e o resultado será um Raymond desesperado e com tempo muito escasso para perder com suspeitas.

Mori deixou passar as informações, pois fizeram sentido e acalmaram suas dúvidas quanto ao plano, e prendeu-se a somente uma que lhe pareceu grave.

— Histórico de... tentativas de suicídio? — Toda a sua irritabilidade se esvaiu para dar lugar à incredulidade e à preocupação.

— O elixir produzido pelo meu corpo consegue me curar a uma velocidade extraordinária às vezes; é quase impossível eu morrer por fatores externos. — Ele deixou o sorriso crescer até tomar os dois lados do rosto. — Mas precisei realizar testes para descobrir o limite.

Não eram respostas o que Mori queria? Então precisaria ser mais forte e parar de se abalar. De novo, ela relembrou a si mesma como desejava ser corajosa como a policial do livro. Low estava distribuindo seus pensamentos e informações pessoais e nem parecia incomodado, aliás, aparentava estar se divertindo. Ele estava mesmo dizendo a verdade ou estava brincando com ela com a intenção de puni-la por segui-lo?

— Por que está tão alegre? — Uma pergunta assim abria espaço para respostas vagas, portanto ela esclareceu: — É suspeito você revelar tantos detalhes assim, de boa vontade.

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