L2|| XIV. Há Quem Chame Isso de Destino

416 81 213

CINCO ANOS ATRÁS (continuação - parte final)

Acordo dentro de banheira de cor branca, dentro de um banheiro muito bem iluminado e da mesma cor. Olho a minha volta com leve confusão e assim que vejo o rosto do homem que me atacara e também me salvara, apenas o fito em silêncio. 

— Te coloquei aí pois você sangrou muito antes de se curar. — Se explica, sentado na beirada da banheira.

Olho para meu corpo. Os furos feitos pelas balas em minha pele já fechados, agora só o vestido exibe todas as marcas do ocorrido em si. As balas foram expelidas sozinhas por meu próprio corpo e sentam-se comigo na banheira. Eu estou coberta de sangue e tentando entender como é que foi que minha noite que começara muito bem terminara assim, comigo sangrando na banheira de um estranho.

— Aonde estou? — Me levanto e o homem se levanta também. 

— Mundo humano. Brasil. São Paulo. Meu apartamento. 

Olho para baixo e ao tentar pisar fora da banheira vejo que estou sem meus lindos sapatos. Saindo dela, olho a minha volta e percebo como o lugar é bem decorado, com aquele luxo moderno característico da raça humana. Há dois espelhos enormes do outro lado então vou até um deles analisar de frente o tamanho do estrago. 

Acho que suei frio enquanto meu corpo descobria como se curar de balas humanas e minha maquiagem humana derreteu em resposta. Meus longos e negros cachos estão mais ferozes que de costume e com o vestido furado e marinada em sangue, pareço ter fugido de uma zona de guerra. 

Da próxima vez que vier para uma balada no mundo humano, virei com minha armadura.

O péssimo samaritano pára em frente do espelho ao lado do meu.

Eu o olho. Ele agora está sem o terno, tem apenas uma camisa azul claro desabotada na gola e suas estúpidas mãos novamente em seus estúpidos bolsos. Reparo que também tem sangue sobre si, e tenho quase certeza de que é em sua maioria meu.

Ligo a torneira prateada e jogo um pouco de água no rosto, piorando o que já está horrível. Maquiagem humana é uma faca de dois gumes: se está no lugar certo é uma maravilha. Se não estiver, é assustador. Respiro fundo, analisando o resultado final do meu dia em minha face incrédula com os ocorridos.

— O que é um traveco? — Pergunto de novo. Sei lá, eu estou curiosa até agora.

— É uma forma de chamar um homem humano que gosta de se vestir como mulher. Imbecis usam o termo na esperança de ofender.

— por isso acharam que eu era um homem?

— Talvez por ser alta demais, erguer um garoto pelo pescoço sem dificuldades e jogar um cara em cima de um carro. Imagino que saiba que mulheres humanas não são tão fortes fisicamente. Nem homens humanos, para falar a verdade.

Você acha que eu pareço um homem humano? — Me olho no espelho curiosa, tentando encontrar o motivo de acharem que eu parecia um.

Quando o olho novamente, vejo seus olhos me percorrem por completo lentamente, em silêncio.

— Definitivamente não. — Concluí, devagar.

— Não te acertaram também? 

Ele faz que não com a cabeça.

— Como não? Tem furos na sua camisa. — Aponto o óbvio mas ele só me olha, despreocupado em explicar como tinha furos em sua camisa mas não em sua pele. — Quem é você?

ADARISOnde as histórias ganham vida. Descobre agora