CAPÍTULO 11

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ONZE

          Pérolas é uma cidade calma. Não tão movimentada quanto Fonte Nova ou Iminente, que são cercadas de pessoas o tempo inteiro, mas ela é viva. Não precisei nem de dois dias aqui para perceber isso.

          Devido a algumas complicações, como uma parede quebrada às oito da manhã, eu e Koa ficamos em Pérolas por mais tempo do que esperado, pois seria apenas uma parada e acabou sendo nossa hospedagem.

          E apesar de termos perdido algo do nosso meio aqui, nada de ruim ocorreu, à exceção de eu ter perdido a cabeça de uma criatura sobrenatural imortal. Depois que eu e Koa nos alojamos no restaurante como o gerente nos recomendou por não termos onde ficarmos, no dia seguinte, contei sobre tudo para meu amigo e, após o surto, fomos vasculhar por aí.

          Passamos três dias procurando por todos os lugares que poderíamos procurar em Pérolas, mas foi como se a cidade quisesse nos dizer que não tinha o que eu havia perdido. Fomos em departamentos clínicos esperando um maluco ter dado entrada com a cabeça de alguém, assim como na polícia, onde o delegado disse que a gente era meio idiota; porém, não a encontramos.

          Se eu tivesse que me desculpar com alguém, não saberia com quem, mas sei que deveria, pois o que fiz, o que deixei acontecer pela minha falta de atenção, foi algo absurdamente perigoso. Eu não saberia como encarar alguém pelo que deixei que acontecesse, e isso é uma coisa da qual eu odeio ter que sentir.

          E, por mais que eu não queira fazer isso, eu tenho que deixar para lá, infelizmente eu devo fazer isso. Não sei quem pegou e muito menos para onde foi, não há notícias sobre e muito menos boatos; sendo assim, estou perdido. Sem rumo, de fato, cego.

          E isso me enfurece acima de tudo.

          Entretanto, termos chegado aqui no início do mês de maio nos deu um passatempo do qual não pensei que fossêmos usufruir. Se você está em Pérolas e é início de maio, pode se deparar com duas situações nada convencionais caso nunca tenha visto um calendário em sua vida. Talvez, por instinto, você já tenha entendido ao que me refiro, ou simplesmente está curioso.

          O dia das mães. Não é exatamente no início do mês, na verdade, se locomove ao segundo domingo do mesmo, e sendo a data que é, me obriga a dizer que o que me intriga é o outro evento. Ou pelo menos o que me intriga agora.

          Um festival.

          Apenas uma festa noturna aberta ao público na rua principal do centro da cidade. Como um visitante, alguém que jamais veio aqui, relembrei da existência desse evento apenas hoje ao receber um folheto de duas moças, bonitas por sinal, uma cheirava muito bem. Uma delas possuía um aroma peculiar, se fosse dizer de um modo científico, diria que é o aroma que uma fêmea tem que atrai o macho.

          Tudo bem, isso foi estranho demais, vou parar.

          Continuando, esse festival, que chamam de "bonecas vermelhas", que casualmente só acontece neste mês e nesta cidade, corresponde ao desejo de alavancar as vendas das lojas e recintos localizados no centro da cidade.

          Colocando de uma maneira fria, é apenas para ganhar dinheiro. Nada mais.

          Apesar de ele já ter se tornado algo comum aqui, nem sempre existiu, o que deixa a entender que foi criado exclusivamente para isso. Não é errado, e mais, na verdade, é o que preciso agora. Pois enquanto estivermos duros, não poderemos sair de Pérolas quando a gente quiser. Neste momento, o que mais quero é exatamente ganhar dinheiro.

Hábitos Decadentes - Exílio AberranteOnde as histórias ganham vida. Descobre agora