Não ouço bem o que ela diz pra ele, porque metade da sala solta assobios e suspiros ao mesmo tempo, e eu sinto que não entendo bem o motivo, mas vejo outras pessoas aplaudindo e comemorando. Karina está tão vermelha de vergonha quando volta pro seu lugar, e o rosto do Pablo está tão ou mais roxo que o dela que eu começo a entender o porquê de ter entregado pra ele. E também entendo o que a "brincadeira" propõe...

O que se segue é realmente uma combinação de surpresas boas. Os fios do barbante vão se misturando no centro da sala e as pessoas têm que fazer movimentos estranhos para pular, passar por baixo e desviar das conexões que são formadas. É engraçado e divertido, ninguém pode negar. O tempo da aula se esvai rapidinho.

Todo mundo leva a dinâmica a sério e eu ouço comentários muito positivo sobre o relacionamento que a gente construiu sem querer-querendo ao longo de tanto tempo de convivência no colégio. A Mariana recebe o rolo da Juliana, e esta diz o quanto a amiga foi necessária na época da separação dos seus pais — a Mariana até solta uma lágrima e recebe abraços de outras meninas também. Isso é muito legal e sincero, e todo mundo parece ter esquecido de rivalidades antigas.

Em certo momento, por exemplo, o rolo de barbante vai parar nas mãos da Isadora e ela entrega pra Natália, é claro, dizendo poucas palavras sobre amizade que já parecem ser esperadas por todo mundo. A Nat, por outro lado, entrega o rolo pro meu primo. Tenho que forçar os ouvidos para escutar o que ela diz, porque é tão baixo que até a professora pede que fale mais alto.

Natália está assustadoramente acanhada quando encolhe os ombros e diz, olhando o Carlos de relance:

— Por estar presente quase que em tempo integral, ainda mais agora que "entrou pra família". É bom te ter por perto.

Algumas fofocas surgem, mas meu primo levanta a voz, gargalhando e desviando a atenção do comentário. Renan e eu trocamos um breve olhar quando ele reclama que não sobrou quase menina nenhuma pra passar o barbante, e que era "macho demais" pra ficar fazendo "declaração" pra outro cara, mas a professora corta sua onda e pede que ele evite comentários do tipo, que não acrescentam em nada no momento legal que estamos tendo.

Carlos abaixa a bola e, meio a contragosto, passa o barbante pro Caíque ao seu lado, dizendo que ele era agora seu "novo segundo no comando" e que estava feliz por ter achado alguém "à altura".

Sinto alguns pares de olhos sobre mim, claramente entendendo que a agulhada tinha sido direcionada ao "antigo segundo em comando", mas não ligo. Me sinto bem em ver o desenrolar no jogo, pelo menos até o rolo de barbante finalmente ir parar nas minhas mãos. Quem me entrega é a Camila, que recebeu do Diego.

Ela para na minha frente e sorri, me dando um abraço antes de me entregar o fio e dizer:

— Você é uma pessoal incrível e eu sinceramente espero que todo mundo enxergue isso um dia. Você não gosta de chamar atenção, mas as coisas boas a gente tem que mostrar pro mundo, tá? — Camila me lança uma piscadela significativa e conclui: — A gente merece te conhecer de verdade, Dani.

Minhas pernas meio que amolecem do nada e fico todo arrepiado. Não sei de onde ela tira as palavras, mas sinto algumas pessoas por perto concordando. Não consigo enxergar quem, porque meus olhos não focam. Minha mente está à mil por hora e eu sinto que me encontro à beira de um ataque de pânico quando a vejo retornando para seu lugar no círculo, segurando sua parte do emaranhado de barbante. O centro da sala parece uma teia de aranha agora. Está difícil até conseguir traçar um caminho entre tantos nós e sobreposições de fios e...

E percebo que estou mentalmente mapeando meus passos até o Renan do outro lado do cômodo.

É automático.

Quando foi que isso começou?

Talvez eu tenha outras pessoas a quem dizer algumas coisas naquela sala, mas não tanto quanto devo dizer a ele. Sei que não é o momento, porém, mas sei também que não existe outra possibilidade: eu simplesmente tenho que passar o barbante pra ele porque ele é minha conexão mais forte. A mais importante no momento.

As pessoas estão olhando pra mim em expectativa, eu sei, porque fazem isso com todo mundo e eu mesmo estava fazendo isso antes. Engulo meu coração de volta pro peito e me obrigo a me mexer. Meus passos são esquisitos e eu me enrolo no fio mais de uma vez, arrancando algumas risadas no meio do caminho. Acho que o Renan só percebe o que vou fazer quando já estou praticamente na sua frente.

Ele me olha de boca aberta quando pego sua mão inerte e coloco o rolo de barbante sobre sua palma, segurando-a por debaixo. O contato faz minha pele formigar e eu desejo do fundo da alma que estivéssemos a sós pra que eu pudesse simplesmente beijá-lo em vez de falar, mas não dá. O resto de todos os nossos colegas está ali. Eles não vão sumir; nem eles, nem a professora de inglês, a Raquel, que espera pacientemente que eu eleve a voz para o pessoal ouvir o que tenho pra dizer pro Renan.

— Mesmo nesse nosso processo todo de aprendizagem, acho que você não sabe a diferença que faz pra muita gente. Principalmente pra mim. — ele ainda está de boca aberta, mas um sorriso se forma discretamente no canto dos seus lábios quando ouve as palavras saindo de mim. — A gente sabe que não é fácil e eu te admiro muito por ser tão forte, por conseguir levantar a cabeça e seguir em frente. E por me levar junto. — faço uma leve pressão na mão que está em contato com a sua. — Por me conhecer de verdade e continuar aqui.

Não sei se é impressão minha, mas a sala parece inteiramente mergulhada no silêncio. Talvez as palavras sejam ambíguas para muita gente, mas sei que o Renan entendeu direitinho todas as letras e vírgulas, porque seu rosto está iluminado. E o meu deve estar pegando fogo, mas não ligo. Não muito. Não na hora. A expressão dele vale mais do que tudo e espanta as paranoias que meu cérebro cria sozinho.

Acho que ele se demora um pouco com o barbante, porque ouço alguém dizer pra andar logo e só então percebo que estamos nos olhando enquanto me afasto. Ele ri, sem graça, e respira fundo antes de dar uma geral na sala. Seus olhos param num ponto à minha esquerda e fico um bocado pasmado quando o vejo pular os fios para chegar a ninguém menos que... Luiz Eduardo.

— Acho que você merece muito mais reconhecimento que eu no quesito "força" — Renan diz, rindo. Luiz parece chocado com sua atitude, mas a Maria Eduarda ao seu lado é só sorrisos e concordância. —, e eu acho que você precisa ouvir mais isso de vez em quando. Cê é uma pessoa muito indispensável e responsável por tanta coisa boa que eu nem sei... Confie mais em você, tá?

Renan deixa o rolo de barbante nas mãos dele e volta pulando pro seu lugar, satisfeito. Vejo as bochechas se inflando e os olhos do Luiz vacilando. Tenho a impressão de que ele passa o braço por sobre o rosto para enxuga-los, mas, quando se movimenta em seguida, é com muita determinação.

Só que é muito imprevisível o que ele faz: entrega o rolo à Maria Eduarda, e não ao namorado. Na verdade, agora noto que o William parece misturado às sombras, avulso. Diego está do seu lado, mas ele interage mais com a Camila, deixando-o meio de lado. William está afastado de uma maneira que parece... errada. Ainda mais depois do gesto do Luiz.

Não ouço direito o que ele fala para a Maria, mas é óbvio que ela cai no seu ombro, abraçando-o apertado, dizendo que o ama e blábláblá.

Há definitivamente alguma coisa errada porque a Maria passa o barbante pro William, mas o movimento todo é meio... sério demais. Não sei. Sinto meus pensamentos girarem: eles estão brigados? Por quê?

Por que eu deveria me importar?!

É claro que não é tão simples e me pego concentrado nas reações dos dois durante o resto da dinâmica.

A professora pede que avaliemos as coisas que foram ditas entre nós, e espera que tenhamos enxergado as conexões: todos estamos atados pelos fios do barbante, mesmo aquelas pessoas que achavam que não tinham nenhuma conexão — o barbante que está na mão do Carlos é o mesmo que o William segura, por exemplo.

Todo mundo concorda que a aula foi mais proveitosa que o imaginado e serviu pra que a gente se desse conta de que, no meio de tanta bagunça, os últimos três anos serviram para que nos conhecêssemos melhor e nos uníssemos com quem nos sentíamos mais seguros. Independente disso, porém, não podíamos negar de forma alguma que todos fazemos parte da vida uns dos outros, pra mal ou pra bem.

Todos fomos conectados permanentemente.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora