CAPÍTULO 9

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NOVE

          Koa, um sutil nome pelo qual chamo meu melhor amigo, um híbrido de homem e gato com complexo de superioridade, foi a única coisa que pude gritar quando o vi perder a consciência e cair na calçada.

          O que houve?

          Minha preocupação para com esta situação só não é maior que a de Koa talvez não se mover nos próximos minutos. Além de que claramente isto não é um ato natural, pois Koa é imune a qualquer doença, devo assumir que alguém é culpado por isto?

          O que me leva a isso? De certa forma, em um mundo como este, assumir que a coisa mais bizarra que aconteceu com você seja causada por alguém de má fé é, de fato, estranho, um clichê. Afinal, em um mundo como este — onde um vampiro existe e uma rua se torna um ciclo sem fim — não assumir que a coisa mais bizarra que aconteceu com você seja causada por alguém de má fé é de fato... burrice. Ainda que um clichê.

          Por hora — não, talvez seja a única coisa que eu possa fazer —, devo tirar Koa daqui.

          — Huhr... huhr...

          Certamente eu receberia uma nota menor que "péssimo" em educação física se isto fosse uma corrida. Koa pesa muito, e mesmo que não pareça, eu sou um molenga, não consigo nem mesmo erguer meu amigo desmaiado que pesa praticamente o mesmo que eu, acho. Se ele pudesse falar, pelo menos isso, certamente estaria me amaldiçoando constantemente.

          E, claro, a culpa disso novamente é minha, acredito eu, sempre é minha.

          Ainda que eu não dissesse isso, ele iria me culpar mesmo que eu não fosse o culpado; sua desculpa será que eu o arrastei a isto, então, sim, de algum modo, isso foi minha culpa.

          Pronto, achamos o responsável, agora devo me interrogar para saber como ajudar Koa. Isto não poderia ser pior.

          Droga, de tudo que eu poderia falar, certamente não devo dizer isso. Apesar de que, de maneira inconsciente, acabei falando mesmo assim, então, sim, um prêmio para este ilustre protagonista, talvez eu tenha acabado de piorar tudo sem nem mesmo perceber.

          — Tudo bem, tudo bem... aqui tá bom — digo enquanto entro pela porta dos fundos de um possível restaurante. Com a esperança de que ninguém esteja aqui, e com a sorte de não ter uma corrente ou cadeado na tranca, eu deixo Koa perto da dispensa, em um canto onde ninguém o achará.

          Enquanto penso em alguma forma de resolver isto, claro, se há uma, certamente tem que ter, devo deixar Koa neste lugar, neste restaurante. Estou começando a achar que ficar perto de locais como lanchonetes e restaurantes são como iscas para algum problema. Se isto não se repetir por uma terceira vez, então deixarei de pensar assim, caso contrário, iniciarei uma missão de nunca mais frequentar esses lugares.

          Agora.

          O que devo fazer? Como eu resolvo isso? Ele não está respirando, e seu coração parou de bater, se fosse uma pessoa comum, eu diria que ele morreu e levaria ao hospital. Mas como é do Koa que estamos falando, um ser que está longe das leis naturais, não sei se isto é algo comum para ele, ou se ele está bem, ou se de fato está morto.

          Porcaria, eu não sei de nada.

          Mais uma vez. Acaba sendo um mártir. Porém, em vez de apenas resmungar, tentarei fazer alguma coisa de fato. Ainda que isso signifique me afastar de Koa por enquanto, pois, durante a correria, eu soltei a caixa de gelo com a cabeça de Luffma. Devo encontrá-lo rápido, não posso deixar alguém ver aquilo, não posso permitir que mais alguém saiba sobre isso, jamais me perdoaria se algo de ruim acontecesse no futuro por causa desse meu erro estúpido.

Hábitos Decadentes - Exílio AberranteLeia esta história GRATUITAMENTE!