Capítulo 34 (Final)

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DOIS ANOS DEPOIS...

MARCOS

- Amor, me ajuda a levantar essa mala, por favor?

O apartamento, que sempre nos pareceu pequeno, está abarrotado de caixas e malas de todos os tamanhos. Hellen corre de um lado para o outro, organizando os últimos detalhes para a viagem. Deixo a caixa que estava embalando em cima das outras e me apresso a ajudá-la.

- Querida, você sabe que não pode se esforçar... - Acaricio seu ventre já saliente e beijo o topo da sua cabeça. - Descanse no sofá por um tempo, eu termino o que ainda falta.

Ela se afasta, ainda que a contragosto e senta-se, amuada.

O irmão Adalberto e a irmã Cláudia estão na garagem, carregando os carros que nos levarão para o aeroporto, enquanto minha mãe compra algumas lembranças que levaremos conosco. Hellen pediu que a sogra ficasse em casa, que não se preocupasse com nada, mas a irmã Ângela, sempre prestativa, recusou-se a deixar o filho e a nora sem os seus presentes.

- Vocês acham mesmo que eu não vou comprar nada para o meu neto ou neta que está a caminho? Quando ele nascer vocês já estarão bem longe, então já vou deixar tudo preparado.

E ninguém conseguiu impedi-la. Saiu apressada e conversando consigo mesma sobre o que gostaria de comprar, batendo a porta atrás de si.

Todos estão de tal maneira focados em suas tarefas que não há tempo para lamentar e sentir saudades. Ao receber a notícia da viagem missionária, minha família ficou bastante comovida. De certa forma, eles já previam o que estava para acontecer, ainda que não esperassem para um tempo tão breve.

Hellen e eu aceitamos passivamente, Deus já havia falado conosco, confortando nossos corações e reforçando o seu cuidado sobre a nossa família, a família que estávamos construindo.

Tudo está preparado. Quando a última caixa é lacrada, nos apressamos a sair, a caminho do aeroporto. O pátio à frente da porta de embarque está repleto de rostos conhecidos. Familiares, amigos, conhecidos, líderes e colegas de faculdade se amontoam no largo pátio que acabou se tornando pequeno com a presença de tantas pessoas.

Na correria de despedidas, beijos e abraços, meu sogro me chama à parte, com os olhos lacrimosos, segura minha mão direita entre as suas e fala:

- Eu sei que você vai cuidar muito bem dos dois, tanto da minha filha, quanto do meu neto, ou da minha neta, que chegará. Eu sei que você cumprirá a promessa que fez no altar. Por favor, tome cuidado... - Ele faz uma pausa para enxugar os olhos com um lenço, que tira do bolso. - Tenho você como um filho, cuide da nossa bebê...você me promete?

Com um nó entalado na garganta, consigo assentir, levemente, as lágrimas bem seguras. Não posso desabar aqui, preciso ser forte, não só por mim, mas principalmente por Hellen.

A fila de pessoas que desejam nos cumprimentar parece interminável. A sensação de que estou apenas assistindo a todos os acontecimentos de fora é fortíssima, como se outra pessoa estivesse no meu lugar, sorrindo, abraçando e conversando.

Meus olhos encontram-se com os de Hellen, que está do outro lado do pátio, conversando com alguns dos nossos familiares. Me admira, mais uma vez, o fato de conseguirmos falar tanto apenas no olhar. Sinto que ela está um pouco distraída, como se não estivesse no presente, sua mente tão distante quanto os meus pensamentos. Aceno para ela, em reconhecimento, dizendo, sem palavras, "eu compreendo".

Então chega o momento da despedida final. Antes do embarque, nos reunimos, pesarosos, para uma última oração. Hellen se aproxima e fica ao meu lado, segurando a minha mão em apoio.

Todos parecem bastante emocionados. E é com esse espírito que iniciamos uma oração de agradecimento a Deus, por tudo o que Ele já fez por nossas vidas, pelas promessas que nos fez e pelo cumprimento delas em nossos dias. Nosso pastor pede a Deus que nos leve em paz, e que nos capacite para a grande obra que colocou em nossos corações e em nossa caminhada.

Sinto uma graça me envolver nesse momento, a confirmação de que não estamos sozinhos, que ao nosso lado vai o Senhor dos Exércitos, abrindo as portas e derrubando todo e qualquer obstáculo que for colocado entre nós e a realização do projeto de Deus em nossas vidas. E ainda que não possamos derrubar as montanhas, sei que Ele fortalecerá nossas mãos e nossas pernas para escalarmos todas elas. O Deus que abriu o mar para seu povo passar pode abrir caminho em terra seca para prosseguirmos. Não temeremos mal algum, sabemos em quem temos crido.

Olhamos uma última vez para trás, os olhos cheios de lágrimas, sem saber quando voltaremos a ver esses rostos novamente, ou quando pisaremos esse chão mais uma vez. Não são apenas as nossas palavras que se despedem, mas nossos corações também dizem um "até breve" silencioso.

HELLEN

Já no avião, sento no lugar que consta na minha passagem, ao lado da janela. Olho para o estacionamento lá fora, procurando esconder as lágrimas que insistem em cair. Apesar de saber que é a vontade de Deus, não posso evitar sentir saudades da minha pátria, que me acolheu por tanto tempo. Como eu disse, morei por alguns anos no exterior, mas ainda era muito nova, não estava deixando uma vida para trás.

Mas o chamado de Deus era justamente esse, deixar minha casa e minha parentela a fim de ser o instrumento que Ele usaria para alcançar um povo que eu ainda não conhecia. Meu coração palpitava de todas as vezes que pensava no sonho, sabendo que já não faltava muito para ser realidade.

Ao meu lado, Marcos olha para mim com um sorriso ansioso, e aperta minha mão, oferecendo apoio.

- E lá vamos nós! - Devolvo o sorriso. Não precisamos falar mais nada, sabemos exatamente o que o outro sente.

A aeromoça pede aos passageiros que apertem os cintos, a viagem está prestes a começar. Coloco delicadamente o cinto sobre a barriga, conversando baixinho com o nosso lindo presente.

- Boa tarde, meu bebê, vamos começar a nossa aventura? Você está confortável aí dentro?

Tenho a sensação de que Marcos olha para mim, e acho que provavelmente ele vai falar que não é propriamente normal conversar com a barriga. Mas em seus olhos vejo apenas carinho, e uma admiração que permanece em seu olhar desde o primeiro momento em que nos conhecemos.

- Você está preparada, minha querida?

Ambos sabemos que ele não está falando do cinto de segurança, nem da viagem de avião. Antes mesmo do nosso nascimento, Deus, em sua onisciência, nos via nesse exato momento, ansiosos e mãos trêmulas. Ele plantou em nosso coração o amor por um povo desconhecido, e nos deu a chance de escolher a sua vontade. Sem hesitação, escolhemos cumprir o Seu chamado em nossas vidas, sabendo que Ele cuidaria de tudo. Escolhemos a liberdade de viver a sua vontade em nossas vidas.

Aperto a mão do meu esposo e com a outra, acaricio nosso pequeno milagre.

- "Sobre terra ou mar, onde Deus mandar, irei..."

Recosto a cabeça em seu ombro e fechamos os olhos. Em uma oração silenciosa, entregamos a Deus nosso futuro, e abrimos nossas mãos, para que Deus tome conta dos nossos sonhos e desejos. Ele está no controle de todas as coisas.

Na verdade, Ele sempre esteve.

Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!