Caminhos Divididos

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Diego Laucsen

2º Lugar no Concurso Ecos Sci-fi

A luz entrou rasgando os olhos. Estava acordando, mas se sentiu como se estivesse nascendo.

Quando a porta do compartimento em que se encontrava se abriu, ela caiu mole, como se estivesse morta. Viu o chão se aproximar sem conseguir fazer nada para se proteger. Seus músculos estavam fracos e flácidos. Bateu a testa contra a grade de metal do chão e um brilho tomou conta de sua mente.

As lembranças... Essas eram turvas.

Lembrava de ser um homem. Se alistou nas forças armadas e serviu na frota espacial. Lembrava de desertar e se tornar um mercenário. Abandonava sua esposa e seus filhos para conseguir dinheiro.

Também lembrava de ser uma mulher. De quando teve o primeiro namorado. De ser médica e salvar vidas.

Essas duas lembranças não tinham nada a ver uma com a outra. Não encaixavam direito na cabeça dessa pessoa que acabou de acordar.

Enquanto se debatia no chão, seu corpo, sensível e magro, escorregava pelo líquido gorduroso que havia se derramado. Quem a olhasse, imaginaria uma girafa que havia acabado de sair do ventre de sua mãe, se debatendo no líquido amniótico.

Sozinha, naquele corredor metálico, sentiu aos poucos sua visão se acostumar e começou a enxergar melhor. Ali haviam milhões de outras cápsulas como aquela da qual ela saiu, mas todas estavam fechadas com portas de vidro, refletindo o brilho esverdeado que vinha de dentro.

Tentou se levantar, mas a fraqueza era maior. A mão escorregou e bateu com a cara, mais uma vez, no chão frio. Ali ficou até sentir calor outra vez.

Quente e protegida por um roupão, acordou em uma maca. Estava sozinha em um quarto branco com apenas uma cama e uma janela opaca. Em seu braço havia um cateter ligado a uma bolsa com líquido amarelo. Os olhos ainda ardiam e o estômago se embrulhava.

Resistiu ao primeiro impulso de se levantar e sair dali. Se mexeu sob o roupão e acariciou a pele ardida de seu antebraço. Estava todo cortado e doía. Como os músculos estavam melhores, imaginou que teria passado por uma terapia de acupuntura para reativar os músculos.

Quando tentou se mover para sair da maca, a porta se abriu. Diversos enfermeiros e enfermeiras entraram e a puseram de pé. Conseguiu resistir, mas não aguentaria muito tempo. Com ajuda, foi levada para uma outra sala, onde se sentou e esperou.

— Senhorita Dora, — disse um rapaz de jaleco branco que entrou por uma porta. — Desculpe a demora. Eu sei que você deve estar se sentindo mal nesse momento.

— O que... — Tentou falar, mas a voz engasgou na garganta. Parecia que deveria treinar a fala como se fosse uma criança.

— Calma. Está tudo bem. Aqui é a usina de clonagem de Alpha Centauri.

— Eu fui clonada? — Perguntou, com a voz em baixo tom. Mesmo assim, a garganta doeu.

— Não, — respondeu o enfermeiro, em tom brincalhão. — As usinas trabalham como uma reserva. Se você morrer, seu clone assume o seu lugar.

— Ah! — Seus pensamentos começaram a fervilhar, como se o cérebro tivesse acordado só naquele momento. — Então, eu... morri!

— Aí é que está o problema que é o culpado pela minha demora para a encontrar hoje. Seu corpo estava marcado para descarte. Ele deveria ser descartado e não acordado.

— E porque eu deveria ser descartada?

— Porque faz mais de quatro anos que seu verdadeiro corpo faleceu. Seu clone, digo, você, deveria ter acordado há quatro anos. Isso acontece, às vezes. Um a cada mil falha e não acorda. Quando marcamos como descartado, fica por cinco anos na usina e então o corpo é decomposto.

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