Prólogo - Esperanças

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— Eu definitivamente odeio esse lugar. — Aurora encostou suas costas na placa de boas-vindas da cidade e cruzou os braços, zangada.

— Aqui é realmente chato... — respondi. Ela me lançou um olhar de condenação.

— Só "chato"? Esse lugar é horrível! — ela chutou o ar, colou suas mãos no bolso de seu casaco e começou a andar no sentido de entrada da cidade. Depois que percebo que ela não vai voltar, vou atrás dela.

Na verdade eu gosto daqui. Mesmo morando afastado das plantações de limão, a cidade toda cheira a limão. Pode parecer cafona, mas o limão é o nosso bem mais precioso.

Aurora não estava revoltada exatamente com os limões (que é o produto carro-chefe de nossa economia), mas sim da cidade ser muito monótona. As mesmas pessoas, as mesmas atividades, os mesmos lugares...depois de 17 anos vivendo aqui, parece que vivemos parados no tempo.

— Eu vou pra Nova Iorque. Vou trabalhar com fast-food, comprar uma mini-van e viajar pelo país todo com ela. — disse com passos pesados; saiu mais como uma reclamação do que um desejo.

— Acho que eu vou me formar, fazer medicina veterinária e me mudar para Nova Iorque também. — falei olhando para o chão e, sem querer, contando os passos. Aurora parou na mesma hora, mas eu só percebi quando bati minha cabeça em suas costas. Finalmente olhei em seu rosto e ela me analisou com os olhos.

— Medicina veterinária? Isso é cafona.

— Desculpe não ser igual à você! — fiz uma expressão de irritação. Com certeza eu parecia uma criança malcriada naquela hora. Ela deu de ombros e continuou em frente.

— Fico até feliz que você não seja como eu. — ela empurrou as palavras letra por letra. — Você será um bom médico veterinário. Já é melhor do que ficar nessa maldita cidade com esses malditos limões.

— Por que tanta implicância com os limões? — questionei. Aurora balbuciou algo, resmungando, e, quando questionei de novo, ela simplesmente deu de ombros.

Com toda certeza ela irá sentir falta daqui quando for embora. Aurora é uma pessoa difícil de se convencer, até ela nega as próprias emoções, mas, depois de anos juntos, eu consigo, quase sempre, decifrá-la da cabeça aos pés.

O que já fora um longo cabelo cacheado tingido de ruivo agora era um cabelo curto e armado, mas ainda assim tingido de ruivo. A raiz escura e as pontas claras e quase desbotadas, sua pele bem morena e um estilo de roupa e música bem bipolar. Aurora adora contrariar as coisas e pessoas e, como uma virginiana de sangue, sempre sabe como manter a palavra e seus argumentos de pé. Seu ascendente em áries nunca foi algo que contribuísse para seu lado sensível...dependendo do dia. Um verdadeiro vulcão, que está borbulhando dentro de si ou petrificando sua lava em dias calmos.

— Eu vou sentir falta daqui. — ela declarou. — Por isso implico tanto com o cheiro que vem das plantações ou o gosto da torta de limão caseira da minha mãe. Porquê nunca mais será o mesmo.

— Quanto drama! Você vai voltar para Limotown nas férias de verão, com sua mini-van, seu próximo namorado tranqueira e seus cachos ruivos. Eu aposto! — ela riu, até da parte em que digo que ela só arruma péssimas pessoas como pretendente.

— Você vai perder essa aposta, pois eu não vou voltar. — ela disse séria. — Por isso vou sentir tanta falta.

— Bobagem, você já ultrapassou suas promessas antes...

— Não é uma promessa, Apollo! Venha cá. — ela falou correndo em direção às ruas da cidade. Às 23h a cidade fica toda vazia e iluminada pelos postes e luzes das casas das antigas famílias aqui vividas. — Está vendo todas essas luzes?

— O que há? — perguntei.

— Não podemos colocar nossas esperanças de que elas vão salvar a cidade inteira do breu que a noite traz. Mas podemos nos certificar que ainda assim, entre o crepúsculo e o amanhecer, haverá luz.

— Bonito. Inventou agora? — falei.

— Apenas reflita sobre... — ela disse.

Eu refleti. Parecia com um poema mal-arquitetado no momentos mas realmente fazia sentido. Não podemos confiar cegamente em nossos instintos ou vontades, mas temos que garantir que entre a derrota e a vitória, haverá esperança e, naquela noite, eu vi uma luz de esperança. Não era apenas uma luz; havia uma presença, havia algo. Eu podia sentir a tal luz que surgira do nada, ela me chamava. Era a esperança me chamando? Era essa a esperança implícita da qual Aurora falava?

Quando lembrei de Aurora já era tarde demais. A luz então se tornou um breu que, seguido de um grito, apareceu novamente mas como um ruído. Eu me sentia fraco; fiquei inexplicavelmente com sono e, antes de apagar completamente, a tal presença fez com que àquela luz branca brilhasse mais forte, quase me cegando.

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