Capítulo 31 - Marcos

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Se vistas de longe, as dificuldades parecem tão ínfimas que nos perguntamos o porquê do nosso desespero em solucioná-las em nosso tempo e do nosso jeito. Mas quando estamos passando "pelo vale da sombra da morte", não nos ocorre que aquela noite terá um fim. Sempre achamos que vamos morrer ali, e alguém vai passar ao lado e dizer: "Era um grande sonhador, conseguia convencer milhões com os seus discursos bem construídos. Mas infelizmente as dificuldades foram pesadas demais, jaz seu corpo no caminho que levaria ao sucesso...". Não pense assim. Além de ser uma mentira, é bastante dramático.

O apóstolo Paulo, no capítulo 5 da sua carta aos Romanos, escreve que a tribulação produz perseverança, e a perseverança gera um caráter aprovado, que nos leva à esperança. E a esperança não nos decepciona. Corrigindo uma expressão popular, a esperança deve ser a única a não morrer. Seja nos bons ou nos maus momentos. Em nenhum versículo você lê que a tribulação mata e ajuda a enterrar. Ela apenas gera crescimento aos que passam por ela e a suportam. É fácil? Nunca é, mas sempre será gratificante a recompensa recebida ao fim, além do amadurecimento.

Faltando apenas dois meses para o nosso casamento, tanto eu quanto Hellen ficamos desempregados. Eu não compreendia o porquê dessa prova tão acirrada. Se Deus estava no controle de todas as coisas, então porque ele permitiu que perdêssemos nosso único sustento?

Em toda a minha vida, nunca me senti tão impotente perante uma situação. Como principal provedor dentro de casa, me preocupava com a minha mãe, que vivia do que fora dado pelo seguro de vida do papai; mas minha maior preocupação ainda era com Hellen. Eu prometera ao pai dela que a manteria com os meus ganhos próprios. Mas nada é em vão, tudo tem um propósito.

Minha noiva e eu ainda estávamos "verdes", precisando de algo que nos apertasse para provar o nosso valor, para que soubéssemos o quanto dependíamos de Deus. O segredo estava justamente ali! Confiamos tanto em nossos empregos que nos esquecemos de que o justo vive pela fé. Isso não nos isenta de estudar e trabalhar, mas nos mantém conscientes de quem nos sustenta: Deus. Enquanto nossa confiança permanecesse em obras humanas, nós estaríamos despreparados perante Ele. E o Senhor procurava nos capacitar para a grande obra que já havia nos mostrado.

Cientes de que tudo aquilo era uma guerra espiritual, e que precisávamos enfrentá-la juntos, nos unimos em uma campanha de oração. Nossos pais nunca nos deixaram na mão, e por diversas vezes se ofereceram empréstimos, só precisaríamos pagar após um ano. Mas eu não queria ficar devendo nada a ninguém, meu desejo era deitar a minha cabeça todas as noites no travesseiro e descansar tranquilo, sabendo que não havia nenhum assunto pendente a ser resolvido. Não fazia sentido contrair uma dívida astronômica quando conhecíamos o dono da prata e do ouro bem de pertinho.

O propósito que fizemos com Deus era composto por jejuns, sacrifícios de louvor, consagrações, vigílias, longos períodos de oração intercessória e muita bíblia. Nos dias em que nos encontrávamos na casa dela, passávamos todo o nosso tempo juntos estudando a bíblia e ajoelhados, em oração. Isso nos uniu de uma forma tão linda e tão perfeita! Hellen vivera comigo os momentos mais felizes da minha vida, e me motivara nos mais tristes, e agora, estávamos unidos em um único propósito durante a maior dificuldade que já enfrentamos como casal. Nosso relacionamento crescia e se fortalecia a olhos vistos! E eu a amava como nunca! Meus olhos enchiam-se de lágrimas e um nó se formava na garganta quando falava sobre o que sentia por ela. Estava longe de ser uma paixão da juventude. Era amor, e era da parte de Deus!

Os pais dela nunca nos deixavam sozinhos, graças a Deus eram bastante conservadores, mas sempre nos permitiam uma certa privacidade, principalmente quando estávamos no período de oração.

Não sabemos quando as portas começaram a abrir, o certo é que aos poucos, fomos ganhando eletrodomésticos aqui, móveis ali, alguns presentes em dinheiro...e todos os nossos amigos pareciam dispostos a ajudar no que precisássemos para que a festa acontecesse. Nós não sabíamos como reagir a esse grande levante divino. Agradecíamos tantas vezes, que se tornara o nosso lema diário, apenas agradecer.

Enfim, duas semanas nos separavam do casamento, o culminar de várias promessas e o ponto de partida para tantas outras. Emprego, nem sinal. Enviamos currículos para todas as empresas possíveis e imagináveis. Não sabíamos mais o que fazer, não tínhamos mais recursos próprios. E era exatamente ali que Deus nos queria. Sem noção do passo seguinte, e de coração aberto para receber qualquer orientação. Em outras palavras, vivendo - literalmente - pela fé.

Liberdade - Uma história de amor e féLeia esta história GRATUITAMENTE!