Réquiem - IV

Começar do início

– Você sabe porque você pode me ver. – Deyah diz, com seu ser trêmulo – Você sobreviveu a 9 dias no Inferno. Você sabe o que sabe. Eles sabem o que você sabe.

– Cale a boca. – Digo para o fantasma.

– Ah, por favor, alguém a dê um pouco de água com açúcar. – Pierre resmunga, parecendo recuperado. – Ela está até vendo coisas.

Ninguém se move. Com muito esforço, afasto novas lágrimas que surgiram após eu me dar conta de que teria que revelar o segredo que vinha mantendo há décadas.

– Eu acho que antes que Ellie nos explique qualquer coisa, precisamos deixar o Exército a par do que sabemos. – Kat começa, vindo ao meu resgate. – Durante um dos "eventos" para a devolução da alma de Ellie, a alma de Deyah conseguiu escapar e ela tem se comunicado com Sophie há alguns meses.

– Soph! – Charlottie exclama – Por que você não disse nada?

– Ela não vai ser de ajuda. – Sophie diz, com decisão no olhar – Não sem nada em troca. E o preço que ela cobra nunca é pequeno. O Exército não precisa dela. Eu apenas pensei que se eu estilhasse qualquer coisa que tivesse o reflexo dela, uma hora ela desistiria. Eu sei que não tinha o direito de fazer essa escolha, mas agora é tarde demais para pensar nisso. O que nos traz de volta a Ellie e a como diabos ela está conseguindo ver Deyah em uma sala que não possui nenhuma superfície reflexiva.

Ouço Anika explicar a algumas das vampiras sobre como fantasmas só aparecem em espelhos e como isso inspirou as lendas que dizem que espelhos prendem a alma de quem olha neles, tudo por alto. Eu respiro fundo e olho para os 13 pares de olhos que focam em mim. Estou com dificuldade de manter minha mente em ordem e nem me surpreendo quando minha voz sai em um choramingo:

– Almas são a substância mais misteriosa do universo. – Começo, como uma preletora. – Pouquíssimo se sabe sobre como elas surgem e como elas chegam ao fim. Dominá-las, guia-las e mantê-las em um lugar foi algo que o Inferno levou milênios para aprender a fazer e não poderia ter feito sem a influência de Deyah. Dá muito trabalho transportar as almas sem grandes consequências, principalmente para o corpo hospedeiro e só algumas criaturas sabem como fazer isso. – Falei, falei e ainda não sei como explicar o que sei: – O efeito colateral de ter sua alma carregada para o Inferno quando você carrega o filho de um íncubo é um problema para o Inferno. Isso não deveria acontecer, porque apesar de ser uma experiência dolorosa demais, após dois ou três dias as grávidas percebem como entram e saem. Mas isso não afetava muita coisa porque ao nono dia elas morriam e o segredo ficava com as almas em sofrimento delas. Eu não morri. O que significa que eu ainda sem como colocar e tirar uma alma do Inferno.

Eu posso sentir a atmosfera da sala mudar mesmo que ninguém diga nada. Elas sabem que ainda tem mais. Dou o meu melhor para manter os sentimentos fixados em um ponto, sabendo que vou chorar ainda mais depois.

– Durante o tempo que eu passei com minha madrinha, também descobri que sou filha de uma mulher que digamos... Tinha poderes.

– Uma bruxa? – Kat pergunta, nervosa.

– Não. Não uma bruxa. Mas os poderes dela estavam ligados a herança familiar também. Só que eu não os tinha quando viva, porque é necessária uma combinação de duas pessoas específicas para que alguém da minha família tivesse poderes e só minha mãe tinha essa combinação.

– Você está fazendo meu cérebro doer, Ellie. – Valentina reclama, verbalizando a confusão dos rostos presentes. Eu estou introduzindo uma nova categoria de criaturas na mente delas. Isso vai levar um tempo para ser absorvido.

– A questão é, graças a ela, eu tenho controle sobre meu corpo. Não deveria ter, mas sou um caso especial, já que passei por situações excepcionais. Tenho um conhecimento sobre a química e a física do meu corpo, combinado a informações únicas sobre os poderes da alma. Enquanto minha alma estava presa no Inferno, esse conhecimento não estava comigo, ou melhor, estava, mas eu não sabia como interpretá-lo. Com minha alma de volta a meu controle...

– Você sabe como ver fantasmas fora de espelhos. – Sophie completa, cética – E o quê mais?

– Sou um portal, assim como Pierre. Posso me conectar com alma e com corpo e entrar e sair de planos diferentes. Por isso, tenho todo conhecimento que Deyah obteve em seus experimentos e que foram roubados pelo Inferno e mais alguns que ela não tinha como conseguir. Como entrar e como sair do próprio Inferno. Conheço as linhas finas e prateadas que ligam corpo e alma. Posso vê-las em minha mente. E graças à minha herança familiar, todas as funções do corpo, seus extremos, seus picos, como alterar seu funcionamento a ponto de se transformar quase em um ser novo. Como destruir lembranças e criar novas. Alterar intenções. – Me interrompo porque me sinto exausta ao expor tudo isso.

O Exército me olha, todas com um fascínio encantado. Entre todas, Kat parece a mais encantada e também a mais miserável.

– Mas espere... – Charlottie diz, soando como a irmã – Se você tem todo esse poder, porque o Inferno devolveu sua alma? Você deveria ser prisioneira mais preciosa.

– Porque eu não tenho todo esse poder. – Digo, ouvindo minha própria frustração em ser uma das vampiras do Exército que não foi uma bruxa enquanto viva. – Todo o meu poder reside no meu conhecimento. Eu sei o que devo fazer, mas também sei que a prática é bem mais complicada do que faço soar. Existe uma lenda, a respeito de mulheres como eu, amantes de incubi que sobrevivem ao Inferno: somos chamadas de Réquiem, porque conhecemos a canção dos mortos. Dizem que alguém assim aparece a cada 800 anos e se isso for verdade, algumas pessoas já souberam tudo que eu sei, mas o Inferno as derrotou. A diferença é que faço parte de um Exército. Eu provavelmente sou a mortal que mais ofereceu perigo ao Inferno em toda a história, mas o mesmo nunca foi vencido por um mortal e eles acreditam fielmente que não é agora que será; o que faz da minha destruição completa apenas uma diversão para eles.

– Ou seja, agora precisamos proteger você a todo custo. – Anika diz, séria.

Ninguém responde a isso, mas todas olham para Kat. A vampirinha tenta se impor, mas a percebo confusa no meio de uma onda de novidades que ela não sabe como absorver. Em uma questão de segundos, todo mundo se dá conta de que Kat não dirá nada e um burburinho em forma de discussão começa.

– Já que você sabe tanto, se importa em dizer porque toda vez que vampiras com alma me tocam eu queimo? – Pierre pergunta, insolente.

Eu sorrio.

– Na verdade, é só sua alma sendo atraída pela nossa. E almas demoníacas queimam, então você está apenas sendo queimado por si próprio. E você tem sorte de ser apenas meio demônio. Se você fosse um demônio completo possuindo um corpo qualquer, parar de tocar você não impediria a combustão espontânea.

Todas se calam, surpresas com a lógica.

– Por que você nunca disse nada? – Miranda pergunta.

Suspiro, querendo mais uma vez chorar.

– Metade desses conhecimentos estavam guardados enquanto eu não tinha alma. A alma lembra de coisas que o corpo não sabe. Eu sabia que deveria saber sobre porque Pierre queimava, mas eu não lembrava porque não tinha minha alma comigo. A única comunicação que eu tinha com ela era a necessidade de sangue. Exceto quando eu fiquei presa em Cianne.

– Era por isso que você queria morrer. – Kat, finalmente diz, sem olhar para mim.

Dou de ombros.

– Eu sabia como sair. Sinto muito.

– Sente até demais. – Sophie resmunga – Chega de blá, blá, blá. A guerra começou. Você supostamente deveria dizer onde devemos começar.

Os olhares se fixam em mim novamente. A alma de Deyah que tinha ficado aquele tempo todo calada, observando tudo, se anima.

– Com alguém que realmente possa fazer alguma coisa sobre as almas. – Digo – A bruxa herdeira da linhagem de Deyah.

Algumas das meninas querem perguntar alguma coisa, mas Sophie parece furiosa por algum motivo e se prepara para sair.

– Certo. Feitiço de localização. Preciso de Anika e quem mais quiser ajudar. – Diz, saindo do quarto e levando algumas das meninas com ela.

Me aproximo de Kat enquanto a sala ainda está movimentada. Ela parece perdida, de uma forma que eu nunca vi. Espero que ela não fique assim para sempre.

– Prepare-se. – Sussurro para ela, com delicadeza. – Quando isso tudo acabar, você voltará a ser a Bruxa Petry que nasceu para ser.

As Crônicas de Kat - A História CompletaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora