Réquiem - III

Começar do início

– Vem, vamos para a piscina. – Digo, limpando a calça – Vou te contar sobre a boneca de vodu de uma das filhas das freiras e o caos que ela causou.

Ela me segue e vamos até a parte de trás da casa, enquanto eu conto essa história que não sei porque me lembrei agora. Uma coisa é certa, qualquer que seja o objetivo de Amelie, todo esse blá-blá-blá vai me manter perto dela até que ele seja revelado.

27 de setembro

Dia da Super Lua Sangrenta

Valentina

– QUEM ESCAPOU DO INFERNO? – Kat grita, a intensidade da voz fazendo a porta do quarto bater às minhas costas.

Eu nem queria ouvir a conversa mesmo. Estava em uma aula de costura com Ellie quando Sophie entrou com Kat e pediu para que eu saísse para que elas pudessem conversar. Isso está mais parecendo uma briga, mas o que eu poderia fazer?

Kat diz que nos valoriza do mesmo jeito e que a época de "As Mais Velhas" e "As Mais Novas" ficou para trás há muito, mas isso não é bem verdade. Dá para ver a diferença na forma como Kat nos trata. Ellie e Sophie são mais próximas a ela e mais próximas entre si. Podemos ser iguais em teoria, mas na prática Ellie e Sophie estiveram com Kat desde o início. Elas são frutos do desejo de Kat por companhia não da necessidade de um Exército. Kat nunca brigaria com o resto de nós desse jeito porque não se importa tanto assim.

Balanço a cabeça para espantar esses pensamentos. Resisto à vontade de grudar a orelha na porta e resolvo ir em direção ao som do piano que Olívia toca insistentemente há duas horas. Encontro Miranda sentada no meio do corredor, com um livro enorme no colo.

– O que você está lendo? – Pergunto ao me sentar ao seu lado. Mas é uma pergunta estúpida; posso ver a capa do livro que diz em letras brilhantes "SIGNIFICADOS E PROPRIEDADES DE PEDRAS PRECIOSAS".

– Eu queria saber mais sobre as pedras que carregamos no pescoço. – Miranda responde, simplista – Às vezes eu acho que elas mais nos escolheram do que nós as escolhemos.

Concordo com a cabeça enquanto ouço a voz de Kat sobressair ao piano de Olívia ("VOCÊ QUASE ME MATOU QUANDO EU ESCONDI QUE...") só para ser abafada outra vez.

– Me conte o que já descobriu. – Peço.

– Bem, vamos pela ordem. – Ela fecha o livro e o abre outra vez procurando pelas pedras em ordem alfabética – A Água Marinha de Juliana atrai pensamentos puros e fidelidade; ajuda a expressar sentimentos e a extravasar aflições. A Almandina de Tatiana é uma variação da granada, que amplifica os desejos, as emoções, a vitalidade, a criatividade, a ousadia e a coragem. A Ametista de Anika é a pedra de maior eficácia na meditação. Transmite paz, espiritualidade, elimina o estresse e inspira a cura e intuição. – ("ELA NÃO É MAIS QUEM VOCÊ ADMIRAVA...") Ela vira folhas enquanto lê, as páginas de cada uma das pedras já marcada – Nossos Diamantes – descanso a mão no meu diamante cor-de-rosa – significam a verdade, a pureza, a perfeição, a dureza, a maturidade, a imortalidade, a limpeza, a fidelidade, a energia. A Esmeralda de Kat é a pedra da confiabilidade e da fidelidade; também é conhecida como a pedra dos viajantes por seu efeito protetor. O Lápis-Lazúli de Sophie e Charlottie é conhecida por estimular a inteligência e autocontrole na tomada de decisões. É associada ao sexto chakra intensificando a captação e percepção de mensagens de outras dimensões. – ("UM ESPÍRITO PERTURBADO, DESESPERADO POR UM POUCO DE...") Percebo que Olívia deixou o piano. Miranda respira fundo antes de prosseguir. – O Ônix de Olívia traz sabedoria em decisões que precisam ser tomadas; inspira proteção contra magia negra, encantamentos e feitiços; estabelece harmonia entre o corpo e a alma. O Quartzo de Louise alivia e cura as mágoas acumuladas, está sintonizado com os nossos estados emocionais, traz paz interior. O Rubi de Kaylee destaca qualidades, amplificando a pureza da pessoa que a usa. A Safira de Ellie intensifica sensitividade, amor, meditação e é uma pedra importante na cura. E o Topázio de Naomi harmoniza a aura, inspira bons sentimentos, oferecendo ao seu portador alegria, paz e bom humor. Entende aonde eu quero chegar?

Balanço a cabeça, tentando fingir que não perdi o raciocínio no meio da explicação. Mas Miranda explica ainda assim:

– Algumas pedras fazem todo o sentido para suas usuárias. – Diz, gesticulando – Outras parecem trocadas. E outras não fazem o mínimo sentido. Eu queria entender o porquê.

Tiro a mão do meu diamante.

– Ah, Miranda, pare de dificultar as coisas. Algumas de nós escolhemos nossas pedras simplesmente porque as achamos bonitas. Incluindo nós duas.

– Talvez. Mas você se esquece que essa história de pedras preciosas foi ideia de Kat. E Kat nunca faz nada sem um motivo.

Ouço outro grito vindo quarto que deixei ("VOCÊS SÓ PODE ESTAR BRINCANDO COMIGO! AGORA???") e Olívia aparece no corredor, com as sobrancelhas franzidas.

– Que diabos está acontecendo?

Antes que eu possa responder, ouço a porta se abrir adiante.

– Olívia, Valentina, Miranda – Kat berra da porta aberta – Chamem as outras meninas e venham aqui imediatamente.

Obedecemos em um salto enviando mensagens de emergência de nossos celulares. Em seguida corremos até a sala. Encontramos Sophie inclinada sobre Ellie na chaise longue, sussurrando coisas inteligíveis. Não porque não podemos ouvir, mas porque estamos abismadas demais com um fato absurdo.

Ellie está chorando.

As Crônicas de Kat - A História CompletaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora