— Ela está no prédio do Senado. — disse o louro. — Seu escritório é o terceiro do segundo andar, no quadrante norte. É a única que ficará lá hoje, pois está se preparando para o Golpe contra o Estado que cometerá na sessão de amanhã.

— Você é uma acadêmica de alta consideração. — falou Oswald Erthta, após bebericar sua cerveja. — Uma das raras pessoas que jamais será parada por qualquer segurança mesmo que fique a perambular nos corredores do Senado à esta hora da noite.

Olhei para minhas mãos trêmulas ao colo. Eu não tinha nada a ver com aquilo, mas ainda assim sentia que não havia escapatória possível:

— Mas como irei fazer isso? — perguntei, levantando os olhos para os dois homens à minha frente.

— Com isto. — disse Erthta, puxando do bolso da calça algo embrulhado em um tecido marrom cheirando a óleo. — Um disparo silencioso que irá salvar nosso país de ser desmantelado.

Olhei para o embrulho pouco discreto. A forma do cano fino da pistola era aparente mesmo a uma primeira vista. Levantei a cabeça e os dois homens do Partido Nacionalista me encaravam sem sequer piscar. Minha pálpebra tremeu como em poucos cálculos fazia enquanto eu esgotava todas as minhas possibilidades mentais de escapar daquele lugar.

Fechei os olhos e inspirei fundo. Com as duas mãos recolhi o pacote maldito, escondendo-o com receio em um dos bolsos internos do meu casaco:

— Você vai ficar bem, Catherin. — disse Erthta, incrivelmente mais doce de um momento para o outro. — Ninguém vai pegá-la, e também não haverá como provar posteriormente. Tome cuidado para não ser vista indo para o quadrante norte e sua vida de estudos seguirá intocada.

Ele levou uma mão para tocar meus finos dedos sobre a mesa. Recuei os braços e levantei, respirando com força para manter um mínimo de firmeza na voz:

— Se algo me acontecer, pode ter certeza de que acontecerá muito pior a vocês, seus covardes. — ameacei, com a voz falha. Virei as costas e fui em direção à saída, sem esperar para saber as reações daqueles machos malditos.

Como haviam dito, o porteiro da entrada principal do Senado foi extremamente cortês quando apresentei meu documento oficial de ocupação. Falei-lhe que iria para a biblioteca no setor sudeste, onde ouvira da existência de alguns tomos de Cálculo Diferencial muito peculiares e pude ver seus olhos de leigo brilhando em admiração. Em situações comuns eu teria um certo orgulho daquela reação, mas naquela noite eu apenas sentia um misto de náusea e leve tontura constantes.

Passavam das vinte e duas horas. Não havia ninguém pelos corredores. Por precaução fui realmente até a tal biblioteca e peguei alguns livros de cálculo trigonométrico e números imaginários e espalhei na mesa mais próxima à saída. Um álibi para caso alguém viesse a questionar meus motivos daquela visita. Também utilizei uma saída alternativa da sala de estudos, sendo o mais silenciosa o possível. Se meus nervos já estavam alterados antes deste ponto, daqui em diante chegava a assustar-me com o farfalhar do tecido da minha capa púrpura sobre meus joelhos.

A pistola que Erthta me entregara viera com seis capsulas para serem inseridas no pente removível no cabo da arma. Era projéteis minúsculos, feitos de metal acobreado. O cano fino era prateado e o cabo inteiro ornado de feições florais agressivas. Eu caminhava com uma das mãos no bolso, segurando a arma, sentindo as pontas dos dedos a textura fria dos enfeites.

As luzes dos corredores dos pavilhões leste e norte estavam apagadas. Apenas a luz que vinha dos postes da rua e entrava pelas largas janelas de vidro iluminavam alguns trechos.

A certa altura parei meu caminhar cuidadoso. Estava no segundo piso da ala norte e uma fresta de luz amarela escapava por debaixo da porta de uma única sala.

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