Parte 1 - Crime

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— Só você pode fazer isto, Catherin. — foram as palavras que sentenciaram meu envolvimento naquele esquema impronunciável.

O lugar era um bar dentre tantos na periferia de Adram, Capital de Astran, uma das nações livres que obedeciam aos tratados de Doradem. Estava quente ali dentro, apesar da noite de outono típica lá fora. Lanternas amarelas iluminavam com irregularidade as dezenas de mesas. O cheio de cerveja barata e cigarro preenchia tudo, me levando a tossir volta e meia. Praticamente todos ali eram homens à exceção das garçonetes de avental desbotado e decotes proeminentes. Talvez até houvesse algo a se aproveitar de tal local obscuro, mas eu nunca frequentaria um lugar como aqueles se não tivesse sido convidada por meus camaradas.

Ou melhor, se não tivesse sido coagida por dois conhecidos de minha vizinhança materna a acompanhá-los. Pelos deuses tivesse sido capaz de escapar naquela noite:

— Vocês não podem estar falando sério. — foi a primeira coisa que respondi àquela delegação sumária. — Eu sou uma acadêmica, uma matemática, não uma assassina!

— Fale baixo, Sthargh! — chiou Oswald Erthta, um homem de vinte e tantos anos e cabelos já raleando. — Por Simes, podemos ser ouvidos por algum policial disfarçado.

Senti um arrepio correr minhas costas àquele alerta. Poderíamos estar sendo vigiados? Que tipo de pessoas seriam vigiadas pelas autoridades com tamanha discrição? Será que meu futuro acadêmico já estava comprometido antes mesmo de acatar a tarefa absurda que tentavam me incutir?

— Você não entendeu ainda a situação que estamos passando, Strargh. — retomou Robinson Goes, o homem louro e de barba que fora quem dissera as palavras cruciais anteriores. — Não há tempo. Você é a pessoa mais adequada que existe em toda esta cidade para dar cabo daquela piranha da Stradovaus.

— Piranha. . . — repeti, apertando as sobrancelhas em desagrado ao nível do insulto proferido.

— Todos sabem da história da sua família com o Stradovaus. — disse Oswald. — Você pode ver este momento como a derradeira vingança pelo que eles fizeram sua avó e sua mãe passarem. . .

— Sem sandices desse tipo, Erthta. — cortei-o, exasperando-me genuinamente. — Não busco nenhuma vendeta por conta do passado sombrio que assola o nome da minha família. Vejo em meu esforço próprio para progredir em minha carreira como uma forma de deixar estes assuntos do passado para. . .

— Bobagem. — interpôs-se Robinson. — Tua avó foi deixada na miséria pelo Conde Stradovaus. Tua mãe vive adoecida desde nova pela precariedade dessa vida de periferia. Poderia ser diferente se não fosse o mal-caratismo daquele velhote. Dizer que não tem apetece tirar a vida da filha legítima daquele paspalho é uma inverdade das mais descaradas, Catherin.

Engoli a saliva àquelas palavras. Lembrar do estado sempre lamurioso de minha mãe era algo covarde da parte do camarada. Por Simes eu havia crescido em uma casa onde o nome da família Stradovaus era maldito. Ainda assim a minha luta contra aquela sede de vingança brutal era genuína. Eu não iria matar uma desconhecida ainda que, em papeis técnicos, ela fosse. . .

— É sua tia, mas ainda é uma Senadora piranha que quer destruir nossa nação. — colocou Oswald, com os punhos serrados sobre a mesa. — Além disso é uma Stradovaus. Ela merece uma morte horrível por portar tanta heresia em um só corpo.

— Eu sequer sei qual é sua aparência, muito menos como encontrá-la. — meneei, sentindo meus braços tremerem pelo recuo perigoso que meu discurso estava fazendo. Já falava como uma assassina preguiçosa em potencial.

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