Capítulo Catorze

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A alguma distância dali, Sandro fingiu deixar de procurar o casal de pombinhos e se despediu de Fábio. E, enquanto o via seguir para a pista de dança, parabenizou a si mesmo pela manobra. Ele não possuía garantias de que o amigo se seguraria sem se aproximar do casal caso o encontrasse, o que poderia estragar a estratégia de Elisa de seduzir Marco, o que seria péssimo.

A Dona Ruiva terá de me agradecer por essa, pensou ele quando Fábio desapareceu entre um monte de gente animada. E inclusive deixar de me cobrar aquela maldita cerveja.

Ainda assim, apesar de ter se livrado de Fábio, Sandro queria dar mais uma volta pela área agora que estava sozinho antes de voltar para a mesa. Passou pelo bar, analisando rostos e roupas, à procura de qualquer vestígio de um loiro engravatado – ou desengravatado, segundo Luana – e de uma ruiva de vestido brilhante.

Não encontrou nenhum dos dois. Numa última esperança, acabou seguindo para os banheiros, e depois de ficar cinco minutos na fila do masculino só para disfarçar enquanto observava em volta, decidiu usar suas comodidades, afinal, foram quatro cervejas até aquele momento.

Ao sair, porém, percebeu que a sorte estava ao seu lado. Porque ali, entre a fila do banheiro feminino e a porta dele, surgiram duas figuras conhecidas, e a cena que elas protagonizavam o fez segurar uma gargalhada.

Elisa e Marco saíam do banheiro feminino, pendurados um no outro e mal se aguentando nas próprias pernas.

Sandro não perdeu tempo e pegou o celular para fazer um videozinho comprovando que havia vencido a aposta. E não só isso, claro. Ele também precisava registrar aquela bizarrice para a posteridade. Os dois se agarravam um no outro, arrastando-se, e um belo pedaço de papel higiênico grudado na sola do sapato de Marco os acompanhava.

Isso sem falar que aquela devia ser a segunda bebedeira que seu amigo tinha na vida. A primeira havia sido numa festa de Natal dos Moraes e, pelo menos lá, a dignidade dele tinha permanecido quase intacta.

Ou mais ou menos intacta, se considerassem que na época o coitado chorava, arrasado por um amor impossível.

Ele devia ter recém feito os seus dezoito anos, e lutava contra uma paixonite pela professora da faculdade, pois era certinho demais para namorar alguém que lhe dava aulas. Vai contra as regras, dizia ele agarrado a uma garrafa de uísque que surrupiaram do pai de Sandro. Alunos não podem namorar professoras, ainda mais as com um sorriso tão bonito.

Rindo-se das lembranças, e também do que via agora, Sandro reparou em como Elisa agarrava Marco. A coitada realmente devia estar na seca, pois parecia que jamais iria soltá-lo na vida.

E pensar que toda aquela conversa dela durante o jantar quase o convenceu de que não queria nada com o Doutor... Quase. Sandro tinha muita experiência com negação, uma vez que a sua Doutora Docinho era mestre nessa arte. Exatamente por isso que ele havia apostado com Guilherme. Agora seria só colher os frutos e ouvir as lamúrias do sobrinho após levar o tio-avô Gino para o proctologista.

Ainda bem que ele decidira se separar de Fábio. Assim estava livre, leve e solto para fazer o que bem quisesse. E o que Sandro queria era seguir filmando aqueles dois até ver aonde iriam.

Claro que, se a ideia era encontrar algum beco escuro, Sandro teria de intervir. Além do fato de aquela região não ser lá muito segura, era capaz de eles caírem e passarem a noite ao relento.

Elisa e Marco estavam tão entretidos um com o outro e com a precária sincronia em seus passos, que nem perceberam que eram seguidos. Sandro ficou até com dó do casal bebum, porque inclusive usar o celular ficou complicado.

Meu Adorável AdvogadoWhere stories live. Discover now