1

4.8K 398 18
                                    

O barulho eu pude ouvir de longe, as carcereira batendo nas grades para acordar. O sinal não tocou, até por que aqui no inferno chamado cadeia, elas desligam toda manhã, só para nos ver congelar no banho gelado que ocorre todo os dias às cinco horas da manhã .

Catei minhas coisas, depois de um tempo já estava na chuveiro. Depois de alguns anos é normal, acostuma. Banho gelado não me matou esses dois anos, só desenvolveu bronquite.

XXX: Olha só a loira inocente resolveu tomar banho — falou com deboche.

Eu dei meu cu como resposta, e você? Por que é impressionante, tu pode ser a pior pessoa do mundo e ainda sim alguém vai invejar você. Por que se não é inveja, não sei do que posso chamar.

Ai tô puro ódio, a merda da gambiarra do carregador quebrou, estou entrando no das meninas da minha cela. Meu marido até agora não deu a grana pra mulher vir trazer um novo, já tô puta com ele, quero nem que me apareça na visita.

Semana passada meu marido mandou jumbo, tanta coisa pra eu comer, cigarro também pro meu uso e pra eu vender. Comprei havaiana já, a minha estava velhinha. Cadeia mona, é sofrimento, é luta constante. Quem tem dinheiro, é rainha. Nada se ganha, tudo se compra. Não tem dinheiro? Você que lute fazendo faxina, lavando roupas ou virando lésbica pra ganhar as coisas. Muitas são heteros e se deitam por comodidade, não quer ir atrás nem se virar pra arranjar as coisas pra si própria.

Fiz sabonete dei pra Maju, ela amou, aí é tão cheirosinho... Ela fica toda toda né, só assim pra eu retribuir minha amiga, mas não tem nada não, quando eu sair eu dou do melhor pra retribuir esses anos. Bato no peito pra chamar de amiga, correu atrás pra caralho da carteirinha de amiga, hoje em dia nem existe mais...

Não é que eu enalteça a minha amiga e deixe minha mãe e meu marido pra trás, jamais! Mas é aquilo irmã, minha mãe é da pá virada, uma semana chora por mim e na outra tá gritando pros quatro canto que a culpa foi minha. E homem? Não boto minha mão no fogo pelo Rodrigo não, tô aqui e sabe-se lá Deus quantos chifres eu não devo ter nessa minha cabeça aqui. Mas uma coisa eu aprendi, cadeia masculina qualquer um vai, mas feminina? Tu tem que amar muito, quem tem visita é rainha amor.

Voltando ao assunto da comida, tô aqui comendo bis por que a gente tá presa, mas dá um jeito de pelo menos tentar ter um pouco — o mínimo que seja, de mordomia. Rodrigo é filha da puta pra caralho, mas manda meu jumbo 3x no mês e tá sempre jogando dinheiro no peculio, pelo menos mal eu não passo.

Maioria das vezes eu nem almoço e nem as irmã daqui da cela, por que graças primeiramente a Deus depois a família, eles trazem bastante coisa de comer e a gente divide tudo. Pelo menos nessa cela dividimos.

(...)

Senti o impacto do abraço forte da Maria, abracei igual. Dois meses se passou, já tem um tempo que ninguém mais veio, já estava ficando doida. Sem poder comunicar até agora, a gambiarra de todo mundo estorou, as carcereira descobriram e por isso foi brecado as visitas. Foram duas semanas de tortura apanhando, gosto nem de lembrar. Como acharam no outro raio e não aqui, quem foi descoberto pegou transferência e 1 ano de falta. E ser sincera, ser torturada é menos pior que ter que pegar 1 ano a mais dentro desse umbral.

Maju: Que saudades Barbie, nossa nem acredito! — me abraçou com sorriso no rosto.

Barbie: Não estava me aguentando de saudades amiga, meu Deus — segurei as lágrimas.

Maju: Ai amiga foi foda, nem que as visita tivesse liberada eu ia vir, maior operação — falou baixo — nem ir no abaixa assinado pedindo direitos humanos pra visita voltar eu fui...

Barbie: E meu marido Maria Julia?

Maju: Depois a gente fala dele por que advinha?

Barbie: Não, o que? — Perguntei animada

Maju: Conta mulher, conta 10 dias por que já cantou teu alvará, pedir muito a Deus pro promotor não recorrer...

Barbie: Tu tá de brincadeira? — Já comecei chorar, abracei ela outra vez

Maju: Juiz ouviu sua apelação, abaixou a pena e o Dr Orlando me explicou que você já cumpriu, ainda mais q já estava perto do fim né amiga... Fé em Deus q ela não vai cantar, ela vai gritar logo logo tá com nois Barbie

Barbie: Nossa nem tô acreditando Maria, meu Deus! Eu vou ser solta, vou ter minha vida — Sorri, limpei lágrima de novo.

Maju: Vai sim meu amor, finalmente vai Ester. — Dei um tapa na cabeça dela.

Barbie: Porra de Ester, não chama o nome, chama o vulgo.

Maju: Nossa, desculpa aí se virou bandida agora, Barbie Perigosa... — rimos.

Barbie: I vem me gastar não hein? Mas quero saber do meu marido, minha mãe...

Maju: Olha só não gosto de te contar pra não ficar te tonteando aí por que pensamento aqui vai a milhão, mas tá foda vendo ele desfilar com uma mina lá no morro, qual foi nem tá te respeitando

Barbie: Vou retalhar ele todinho, escreve aí. Tô aqui privada e ele pondo chifre na minha cabeça, né? Eu mato ele Maria, já fiquei aqui dois anos, voltar é o de menos...

Maju: Aí amiga quero mijar

Revirei olho se levantando, fui até a porta do banheiro, gritei.

Barbie: Tem visita no banheiro? — ninguém respondeu falei de novo. — Tem visita no banheiro? — ninguém, última. — Tem visita no banheiro?

Ninguém respondeu, entramos junta Maria mo filha da puta quis cagar, aproveitei pra tomar um banho calor dos inferno, cela 45 grau.

VULGO BARBIE | Escola da rua. Onde as histórias ganham vida. Descobre agora