21. Olhos turquesa

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Onde se refletia a inocência e se escondia a crueldade acometida a eles.

Os passos ecoavam pela escada. Estavam cercados por piso e paredes brancos de um corredor longo que parecia forrar um túnel; não tinha janelas ali — e com certeza não teria nenhuma por toda a extensão do lugar.

— Viu só? É só seguir com precisão o que eu falo que tudo dá certo.

Dr. Ray caminhava com passadas rápidas, seguido por Teris. Animado como uma criança no dia de seu aniversário, ele somente não saltitava por conta de sua carga — não que o harmínion fosse pesado, apenas seria melhor não arriscar acordá-lo antes da hora.

— Eu sempre sigo "com precisão". Não posso ser culpada pelos imprevistos — Teris retrucou.

— Mas é claro que pode, garota ingênua! — Ele riu como se interpretasse, de forma exagerada, o papel de um comediante. — E o seu pai concorda.

Teris mordeu o canto do lábio inferior e apertou os olhos enquanto virava a cabeça para não ser obrigada a ver o doutor. Nem adiantava insistir no assunto quando aqueles que a declaravam culpada tinham o poder de comprar a razão.

— Coloquei a sua "poção" em um monte de lugar e escondi o resto no laboratório do Daniel — ela resmungou. — Sem falar no pandemônio da convenção, mas você agradeceu? — acrescentou em um tom inaudível.

— Ele se concentra tanto em mim, desconfiado como é, tentando se antever a um plano mirabolante, que se deixa enganar por ações simples. — Dr. Ray comentou mais para si do que para a jovem e soltou um riso discreto.

Depois do último degrau, depararam-se com uma maca e uma trilha ainda maior de túnel branco. Com cautela, Doutor Ray colocou o harmínion adormecido sobre a maca e ajeitou-a para empurrar à sua frente.

— Não perca tempo com a irritação — continuou o doutor, voltando a caminhar. — Elliot está aqui. Está tudo resolvido... ou quase tudo. Mas o que não está resolvido será divertido de se resolver.

A jovem o acompanhou calada. Nunca esteve naquele lugar antes — e até agora não vira nada de mais que justificasse tanto segredo ou o motivo de nunca a permitirem descer lá... até chegarem à verdadeira entrada.

Duas portas duplas de aço os separavam do restante do laboratório. Não havia nem mesmo uma janela que permitisse visualizar um pedacinho do outro lado. Essa era a verdadeira segurança que mantinha qualquer funcionário curioso — que se atrevesse a entrar no túnel — fora do laboratório. Era uma entrada barrada pela identificação do code.

Raymond parou ali, entretanto não fez nenhum movimento para abrir a porta. Ele se virou para Teris e observou-a com um ar misterioso.

— Assim que atravessarmos esta porta, você pertencerá a um patamar mais alto, como seu pai deseja. Mas precisa entender que sua família não fará parte disso. Este é um privilégio oferecido apenas a você, e qualquer informação que disseminar lhe trará graves consequências. Existe um motivo para que certos conhecimentos sejam acessíveis apenas por certas pessoas — alertou, usando um tom cheio de expectativa, e finalizou com seriedade.

— Estou ciente. — O discurso não a impressionou. — Meu pai só quer status; pra ele, pouco importa o que eu digo, então não tem esse risco de disseminar informações sigilosas. — O tom de voz se alterou na última palavra, demonstrando ironia. Ela que não se importava com essa palhaçada.

— Ótimo. — Raymond sorriu satisfeito e tocou um ponto específico da porta, na altura do seu coração. — Seja bem-vinda ao meu laboratório.

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